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A mostrar mensagens de janeiro, 2020

Desafio de escrita dos pássaros #2.1

Mote: Acho que a coisa não vai correr bem Sentado no peal de um prédio devoluto e que clandestinamente o albergava, Elizário mantinha a caixa de papelão no chão com uma simples moeda, sempre à espera que alguém se condoesse e deixasse uma redondinha, como ele gostava de lhe chamar. Passara mais de meio século desde que partira da sua terra num velho navio de carga para vir cumprir o Serviço Militar Obrigatório para o Continente. Saíra da Fajã de Santo Elói dois dias antes, pois a subida até ao cimo das Lagoas era obra dura e requeria persistência. Um naco de broa, um de inhame frito e uma botelha de vinho era tudo quanto carregava consigo quando trepou pela encosta íngreme por carreiros estreitos e perigosos enquanto olhava atrás de si o mar azul e infindável. Certo dia perguntara ao Padre Josué o que havia depois do mar. O Padre teve dificuldade em responder a alguém que nunca soubera ler nem escrever quanto mais saber outras ciências. Elizário não percebera a resposta, mas ali de cim...

Sorte de principiante!

Naquele canto escuro da taberna, Armandino e Izidoro falavam em surdina. Combinavam “umas coisas”, disseram eles ao Adérito quando este tentou, em vão, intrometer-se. - A noite está fechada com nuvens, não há Lua… calha mesmo bem… - afirmava um. - Então e o Lambranca? – duvidava o outro. - Não te rales que hoje é sábado o dia da tosga da semana. Agora só amanhã de manhã quando tiver curado a " buba "! - Mas mesmo assim tenho medo! - Não tenhas, Izidoro… Está tudo controlado. Amanhã tens laranjas na mesa e das boas! - E se alguém desconfia? – insistia – Não quero chatices com o senhor José Joaquim que foi padrinho do meu falecido pai… - Ninguém vai saber! Daqui a nada cada um sai e encontramo-nos ao pé da oliveira velha. Quando chegares tosse, se me ouvires tossir entramos juntos pelo portal. Temos é de desviar aquela cancela de madeira. Combinado? Izidoro puxou uma fumaça do cigarro, beberricou o resto do vinho quase azedo e confirmou com a cabeça. - 'Bora lá! Era a prime...

Desafio de escrita dos pássaros #17

Mote: Luz e sombra A tela pictórica estendida à sua frente dava-lhe ares a qualquer coisa, mas não se lembrava bem do quê. E já ali estava há um par de horas a observá-la. De quando em vez um visitante passava, olhava para o quadro e seguia. Outros, tal como ele, ficavam ali mais algum tempo. Sentavam-se ao lado de Malquíades, sorriam para este e raros eram os que partilhavam comentários, sempre em línguas diferentes. O quadro fora pintado por Beatriz e encontrava-se em exposição numa das mais conceituadas galerias de arte de Barcelona, situada no bairro gótico quase paredes meias com o museu Picasso. O movimento ao redor da galeria era imenso, essencialmente turistas que passavam, espreitavam, entravam e por fim ficavam espantados com a beleza das telas que a namorada de Malquíades pintara nos últimos anos. Beatriz, já com uma evidente barriga de grávida, tentava explicar aos visitantes as razões de cada tela num inglês bem pronunciado. Por vezes surgia um ou outro que falava catalão,...

Desafio de escrita dos pássaros #16

Após alguns pequenos avanços e muitos recuos na vida, Malquíades conseguira finalmente assentar num trabalho onde, estranhamente, se sentia bem. A sua primeira opção de emprego como jornalista não havia corrido de forma iluminada. Diversos conflitos com colegas e maioritariamente com o chefe da redacção, fizeram com que abandonasse o jornal mais cedo do que gostaria. Saltitou de emprego em emprego (chegou mesmo a concorrer a Pai Natal!!!), até parar naquela agência onde a sua única função seria… escrever. Ao que constava figuras mais ou menos públicas tinham blogues, mas eram os outros que escreviam os supostos textos. Para Malquíades a situação era confortável desde que lhe pagassem. E pagavam… principescamente. O pior mesmo ocorreu quando lhe encomendaram um texto sobre um tema quase filosófico. O tipo que solicitara o trabalho à agência era um pequeníssimo “bloguer” de nome bizarro e que se confundia com uma bebida. O tema versaria: “ Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é p...

Tancat (*)

Encerrei o meu baú recheado de memórias, afectos, lágrimas, ardores, forças e farpas.   Fechei o meu coração à cínica fantasia De crer na luz brilhante do dia em vez Da noite temerária de breu vestida.   Voam finalmente as penas e folhas De inesperado Inverno ríspido e bravio Que só me trás orvalhos gelados.   As cartas de uma vida rasgadas Num acto desesperado de salvar Não o meu pobre cadáver. Quiçá a alma.   (*) Tancat - expressão catalã para encerrado