Desafio de escrita dos pássaros #8
Mote: Escreve uma carta para a criança que foste
Fechou o livro, colocou-o ao lado, olhou o tecto e largou um profundo suspiro. Beatriz deitada no sofá deu conta e perguntou:
- Até onde foi esse suspiro?
O namorado não respondeu. Deixou-se ficar ali a cismar, numa lassidão incomum.
Na lareira ardia um fogo denso e crepitante que aquecia a sala. De um candeeiro vinha uma luz amarela quase tão quente quanto o lume. O ambiente propiciava ao sossego.
- Malquíades diz-me lá até onde foi esse suspiro? – teimou Beatriz.
Um silêncio. Por fim respondeu:
- Até a um tempo… longínquo!
Insistiu:
- Nunca falaste do teu passado, mas não é por não se falar, que ele deixou de existir. Sempre senti que há algo, aí nesse coração, mal resolvido…
Novo silêncio. As palavras eram sempre tiradas a ferros…
- O meu pai… Nunca conheci verdadeiramente o meu pai…
- Não queres falar disso agora?
- Não… - uma longa pausa - preferiria escrever… um dia!
Fez-se luz na mente de Beatriz. Talvez conseguisse que Malquíades escrevesse… Talvez! Ergueu-se do seu confortável poiso, foi à lareira, ajeitou o lume, aproximou-se finalmente do namorado, abraçou-o ternamente e sussurrou:
- Imagina que o teu pai sabia que iria morrer e antes disso escrevia-te uma carta. Ou dito de outra forma… escreve tu hoje uma carta ao menino que foste ontem…
A ideia, estranhamente, agradou a Malquíades. Saiu do seu lugar, foi à secretária e sacou do bloco. Regressou ao seu cadeirão e começou a escrever. Queimaram-se alguns quilos de lenha até que o bloco caiu nas mãos de Beatriz.
Esta pegou nele, desfolhou algumas páginas e leu:
“Meu filho,
Sei que estou longe, muito longe, mas acredites ou não, velarei sempre por ti.
Não tive culpa de não termos falado mais, brincado mais, ralhado mais. De nunca termos ido ao futebol, ao cinema ou simplesmente levar-te a uma festa de anos dos teus amigos.
Lamento profundamente este afastamento involuntário. A vida nem sempre é como gostaríamos.
Há algo ainda que me arrependo de nunca ter feito e se pudesse voltar atrás, crê-me, que o faria amiúde.
E parece tão simples, tão natural…
Bastava dizer: amo-te meu filho!
Algo que jamais proferi…
Desculpa e até um dia.
O teu pai.”
Lágrimas esvaíram em torrentes pela face bonita de Beatriz. Levantou-se, aproximou-se do namorado, cravou as mãos finas na face de Malquíades e beijou-o docemente. Declarou:
- Um dia serás um maravilhoso pai!
xi coração apertaduxo
ResponderEliminarUm beijo ao Malquíades e um beijo ao menino que não conheceu o pai.
ResponderEliminarUm beijo também aos filhos do menino, só mais tarde perceberão algumas atitudes - pelo menos, só em adulta percebi algumas atitudes de superprotecção do meu pai, órfão de mãe aos 5 anos.
Obrigado!
ResponderEliminarMas eu não fiz nada.
Um beijo a todos os meninos que nunca foram meninos...
ResponderEliminarOh José, comoveu-me!!!
ResponderEliminarGostei muito!
Beijinhos
Obrigado Luísa.
ResponderEliminarBom fim-de-semana!
Um abracinho apertado ao Malquíades
ResponderEliminarRecebido e entregue.
ResponderEliminarMalquíades agradece.
Mais um lado do Malquíades, desta vez o lado emotivo. (Eles já não casaram?) Beijinho
ResponderEliminarParabéns pelo maravilhoso texto!
ResponderEliminarNão casaram não senhora...
ResponderEliminarNem sei se casarão!
Obrigado.
ResponderEliminarUm órfão de pai...
ResponderEliminarLindo. A ausência de um pai, seja porque circunstância for, marca para toda a vida.
ResponderEliminarNem mais!
ResponderEliminarmarca mesmo.
ResponderEliminarEu que o diga...
Eu perdi o meu pai com 14 anos. Já passaram quase 30 anos mas, quando penso nesses momentos, parece que se passaram ontem.
ResponderEliminarHá quem tenha um pai mm às é como nunca tivesse tido.
ResponderEliminarQue não é o meu caso.
Mas conheço casos assim.
Bom domingo.
És um sentimental e a carta está ...
ResponderEliminarPalavras para quê?
Eu não...
ResponderEliminarO Malquíades!
Eu sei que é o Malquíades, ah,ah,ah!
ResponderEliminarQue bonito!
ResponderEliminarMalquíades nostálgico.
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