Desafio de escrita dos pássaros #7

Beatriz sentiu o telemóvel tremer no bolso de trás das calças de ganga. Alguém lhe estaria a ligar, quiçá Malquíades, que após o esquecimento do jantar daquela sexta-feira, de má memória para ambos, fora votado a um longo castigo por ela imposto, mas que ele nem daria conta.


Continuou por isso a pintar calmamente uma enorme tela até que, já extenuada, decidiu parar. Recuou uns passos e ficou a observar o trabalho pictórico acabado de fazer. Esboçou um sorriso malandro como prova de que gostara do que via. Desembaraçou-se do avental sujo de tinta, descalçou as luvas, bebeu uma garrafa de água e finalmente sentou-se para ver o telemóvel.


Acertara na chamada de Malquíades. Ligou de volta:


- Olá boa noite, ligaste-me?


- Sim.


- E… - decididamente o homem não largava os monossílabos.


- Hummm… não sei como dizer isto…


Beatriz ergueu-se de um salto… Na sua cabeça aquela derradeira frase do namorado trazia algo estranho e o coração começou a bater mais depressa. Provavelmente esticara a corda em demasia e agora o namorado iria libertar-se dela, assim como quem estala os dedos de uma mão. Aquele homem era assim, por vezes, um ser estranho quase ausente, mas tinha um coração do tamanho do mundo onde todos cabiam e por isso amava-o profundamente. Todavia, e antes de dizer alguma coisa inconveniente, preferiu aguardar.


- Aceitei participar numa brincadeira de escrita com uns colegas da redacção do jornal e deram-me uma frase para eu desenvolver.


O coração de Beatriz aliviou-se… Respirou fundo, apaziguou o músculo cardíaco e mais desanuviada, acrescentou:


- E qual é o mote?


- Pois… é uma coisa de mulheres. Acho eu…


- Mas diz lá…


Malquíades leu:


A Constança precisa duma mascara capilar, mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar.


- Desculpa, mas não percebi bem. Podes repetir, se fizeres favor? – assumiu Beatriz.


Malquíades repetiu o texto, lendo devagar e pausadamente. Depois aguardou que a namorada dissesse alguma coisa:


- Mas isso é mesmo um tema?


- Sim!


- Um tanto bizarro… não achas?


- Ainda bem que pensas assim. Julgava que era só eu.


- Só há aí uma coisa que estranhamente não entendo…


- E é o quê?


- Quem é a essa tipa que aí falam… a Constança, hem?

Comentários

  1. Ah! Afinal há mais quem estranhe o tema...muito boa continuação.

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  2. Então, mas... o Malquíades vendeu a história aos colegas, ou não? E a Beatriz, acreditou ou não?! :D

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  3. Nao vendeu nada qu'o rapaz não é desses.
    A Beatriz é um 'cadinho ciumenta.
    Bom fds.

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  4. Algumas... outras são muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito complicadas.
    Ahahahahah.
    Bom fds.

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  5. Muito bom. Adorei a forma como deu a volta ao tema.

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  6. Por tu faxavor... qye aqui no bando da passarada somos todos iguais.
    Bom fds.

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  7. Pois, pois e a azeitona quem a colhe?
    Nesta época não há fins de semana...
    Tem de ser sempre a trabalhar. De sol a sol...

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  8. Oh Aninhas... tu não calculas o raio de terrenk é aquele onde se anda na azeitona.
    Consegue-se com sorte encontrar um bocadinho de terra no meio das pedras.
    Boa semana!

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  9. Usa-se da imaginação...
    Neste desafio só mesmo assim!
    Bom fds.

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