Contos Tontos - 35

Na lareira ardia um fogo denso exalando um bafo quente, dando à biblioteca um ambiente acolhedor. Na frente do lume Américo lia um livro grosso. Geralmente optava por clássicos, já que ainda não se adaptara à nova forma de escrita.


Sentado num velho sofá de cabedal cuja cor há muito que havia desaparecido ia folheando o livro com a serenidade que os seus anos quase o obrigavam.


Enviuvara havia poucos meses, após uma luta inglória contra a doença da esposa. Optara por ficar na sua casa de sempre, repleta de recordações de mais de meio século de casamento.


Todavia naquela noite sentia-se mais triste e mais só que todas as outras. Especialmente porque os netos lhe haviam prometido visitá-lo nessa noite e até àquele momento nenhum aparecera.


Era tarde, assim o indicava o enorme relógio que num tique-taque longo desfiava minutos, horas, impaciências.


Américo fora médico de renome. Deixara de exercer logo que a esposa adoecera, no entanto era amiúde interpelado por colegas, para tirar dúvidas. Questões que o médico nunca recusava responder.


Tocou no relógio as badaladas da meia-noite. Doze toques sonoros, lentos, pausados. Iniciara-se outro dia e Américo decidiu preparar-se para se deitar. Os netos haviam falhado a promessa e portanto nada mais o obrigava a ali ficar. Fechou o livro, ergeu-se e aproximou-se do lume para o ajeitar.


Depois voltou-se para a porta de saída e…


- PARABÉNS Avô!


Um coro feito pelos cinco netos e pelos dois filhos ecoou na casa!


Américo recuou com o impacto das vozes em uníssono. Esquecera-se por completo do seu aniversário.


Por fim abriu os braços para envolver a família. Todos o abraçaram num momento único. E ali ficou uns segundos que lhe pareceram horas. As lágrimas corriam pela face rasgada pelos muitos anos.


- Avô, estás a chorar? – perguntou-lhe a neta mais nova.


O velho médico aconchegou a neta ao peito e disse-lhe com a voz embargada:


- Estou…


- Nunca te vi chorar…


Em silêncio deu um longo beijo na neta enquanto olhava para o quadro pendurado na parede oposta com a figura bonita da esposa.

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!