Em bico dos pés

Havia umas semanas que Emídio andava arredio. A mulher Eugénia até comentara com a comadre Clarinda o mais recente estado do marido:


- Não sei o que se passa com o meu home’… desde há uns tempos que anda estranho…


- Algo que o preocupa… - desculpava a comadre.


- Humm... Espero que não seja um rabo de saia como aconteceu ao meu padrinho Jacinto. Embeiçou-se por uma galdéria qualquer lá da vila e largou tudo para ir atrás dela. Quando se viu sem cheta veio com o rabinho entre as pernas ter com a minha madrinha…


- Ah ele foi isso? É que me haviam dito que ele fora para Lisboa por causa de um nascido…


- Foi nada… o parvalhão. Mas espero que o meu Emídio não se meta numa dessas… Ele que se livre…


- Ó mulher o teu marido é boa pessoa. Não te faria isso com toda a certeza.


- Pois comadre… até pode ser, mas que anda cismado, isso anda. E não sei com o quê.


- Alguma dívida… talvez – avançou a outra tentando saber mais.


- De certeza que não. Tivemos aí uns dinheiros com a venda dos bezerros que deu para pagar à loja e ainda sobrou qualquer coisita.


A determinada altura Eugénia percebeu que falara demais tendo em conta a língua de trapo que costumava ser a comadre e fugiu do tema:


- Diga-me uma coisa comadre Clarinda, já nasceram os pintos da sua cocó?


O tema preferido da comadre era os seus bicos e assim rapidamente se mudou de assunto. A tagarelice versou capoeiras durante muito tempo.


Entretanto do outro lado da aldeia Emídio escardava umas oliveiras velhas, quase tão velhas quanto o tempo, como afirmou uma vez o seu pai Jerónimo. Aproximava-se o tempo da colheita mas o mato que crescera ao redor dos pés das oliveiras teria de ser cortado antecipadamente. Munido de uma enxada rasa e um alferce o homem ia cortando os rebentos e o mato. Na sua cabeça muitas ideias, muitos pensamentos todos eles poucos cristãos.


- Tenho de falar com o padre Abílio por causa desta cisma. Ele deve-me poder ajudar.


Mas o padre nem sempre estava disponível e Emídio foi adiando a conversa. O silêncio era o seu refúgio o que levou a esposa a perceber que algo não estava bem. Após diversas tentativas para descobrir o problema, Eugénia deixou de fazer perguntas e passou a aceitar a nova postura do esposo.


Do casamento não nascera qualquer filho o que fazia que Emídio se sentisse diminuído em relação aos demais aldeões. Muitos sobrinhos era certo, mas filhos, filhos… nem um!


A determinada altura a mulher pensou que seria isso. E tentou trazer ao de cima essa conversa avançando com uma proposta:


- Ó home’ será que andas assim por não termos filhos? Sabes que isso resolve-se depressa. A tua irmã tem uma ranchada deles e de certeza que não se importaria que tomássemos conta de um. Seria menos uma boca…


Mas o aldeão negou. Uma e outra vez! E Eugénia aceitou. Contrafeita.


Naquele sábado o homem levantou-se cedo. Como sempre. O gado requer sempre muita atenção e cuidado. Mas aquele dia deveria ser especial… A ideia que o atormentava havia tempo ganhara forma e Emídio iria dar vazão ao seu pensamento e vontade.


Ordenhou as ovelhas, deixou o tarro repleto em casa como era seu hábito, largou as vacas e a burra prenha no lameiro e partiu para o barracão onde normalmente guardava a palha. Este era um edifício velho mas rijo. O telhado alto assentava numa madeira ainda sem caruncho. Mais abaixo as traves, outrora grossos eucaliptos suportavam um soalho também ele de madeira. Emídio subiu com a ajuda de uma escada e atou uma ponta do cordame à volta da viga.


Depois em baixo foi buscar um banco velho colocou-se em cima deste, mediu o comprimento do cabo e na ponta fez um laço de correr. Por fim o último acto e colocou a laçada à volta do seu pescoço.


Olhou o céu, benzeu-se enquanto rezava um Padre-Nosso. Terminou com uma frase:


- Desculpai-me Senhor…


Com os pés fez tombar o banco para um dos lados. O corpo caiu com peso e Emídio sentiu num instante o laço apertar-lhe o pescoço e a respiração a ficar dificultada. O fim aproximava-se e com ele toda uma angústia vivida nas últimos meses, semanas.


Mas o destino é por vezes amargo, outras doce e quando Emídio esticou os pés estes… tocaram o chão. O suficiente para o laço não apertar mais com a força do seu peso.


E assim ficou até Eugénia o descobrir, após muitas horas de busca!

Comentários

  1. Não foi apenas um problema que o fez tomar essa decisão, foi um acumular de pequenas coisas, muitas sem importância. Mas a hora do nosso amigo não tinha chegado e o destino trocou - lhe as voltas e deu-lhe mais uma oportunidade...

    ResponderEliminar
  2. O fim desta história é verdadeiro. Os seus contornos é que foram inventados.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!