Contos tontos - 33

Tinha horas de nascido quando ouviu pela primeira vez o som estridente de uma locomotiva a apitar, o que o fez chorar. No entanto dias depois já se habituara.


Os pais eram guardas de uma cancela onde com frequência passavam viaturas, pessoas e animais.


José Lúcio foi por ali vivendo e vendo os comboios a passar. Os primeiros a carvão com demasiado fumo e barulho ao que se seguiram as máquinas a diesel, também elas barulhentas. Aprendeu todos os horários e conhecia como ninguém os maquinistas que lhe acenavam com alegria.


O apeadeiro ficava a poucos quilómetros mas o jovem jamais por lá aparecera. Assim que o trem passava Zé punha-se no meio dos carris até ver desaparecer a última carruagem numa curva onde as linhas paralelas pareciam tocar-se.


Todas as noites, sempre que se deitava na cama malcheirosa com um rancho de irmãos, ficava a tentar adivinhar o que haveria para lá daquela curva. Algo que nunca perguntara a ninguém. Uns diziam que para um dos lados seria a capital Lisboa, o país, o mundo. E para o outro lado, o que haveria? Ninguém falava disso.


A escola era numa aldeia longínqua. Estivesse frio ou calor, chuva ou vento, José Lúcio punha-se sempre a caminho. No entanto, cedo percebeu que o conhecimento lhe daria vantagem. Mas ao mesmo tempo temia as respostas a tantas perguntas que invadiam o seu cérebro e que nunca formulara a ninguém.


Sempre que podia ajudava pai e mãe a subir e a descer a cancela e nunca vira nenhum acidente. Ainda bem pensava ele.


Mas todos os dias olhava a estrada de ferro que levava tanta gente…


Certa madrugada, já com 16 anos, pegou num bornal encheu-o com o que podia levar para comer e partiu linha fora à descoberta do que haveria para lá da curva…

Comentários

  1. E porque não me trata por "tu ca tu lá?
    Obrigado de igual maneira

    ResponderEliminar
  2. ...e nunca mais ouviu o comboio , e nunca mais levantou a cancela ...

    ResponderEliminar
  3. Respeito! :-) Mas prometo que vou tentar!

    ResponderEliminar
  4. Companheiro,

    o respeito não está na forma como aceitamos o outro, não pela diferenças de idade.
    Dou o meu exemplo: no Departamento da empresa onde trabalho sou o mais velho e o mais antigo, Ainda este mês entraram dois jovens que são mais novos que os meus filhos. E pedi-lhes logo para me tratarem por tu.
    Se me tratarem por senhor quer dizer que não me respeitam pelo meu trabalho mas tão-somente pela minha idade.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  5. E quem disse que o trato por "você" pelo facto de ser "cota"? :-)))

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!