Contos Tontos – 25

Olhou o pai naquela cama de hospital e lembrou-se da noite em que o progenitor ficara sentado na beira da sua cama a afagar-lhe os longos caracóis. Depois alternou com o seu irmão mais novo, José, a quem também afagou os cabelos.


Ela, Maria, fingira dormir nessa noite porque gostara daquele afago. Estava muito longe de perceber o porquê daquela invulgar ternura do pai. Seria somente no dia seguinte que saberia, sem realmente perceber o que acontecera.


Tinha cinco anos, mas aparentava ser mais crescida. Aprendera a ler sozinha com a ajuda de uns livros que encontrou por casa. Daí até ler as notícias no jornal diário foi um ápice e um choque.


O pai, entretanto, mexera-se no leito e foi a vez dela de acariciar o idoso e moribundo. Passou a mão pelos cabelos alvos como neve e assumiu que a vida naquele corpo estava condenada.


Durante mais de 20 anos a família fora unicamente de três quando deveria ser de quatro e não obstante algumas tentativas falhadas por parte de algumas ditas amigas da mãe, o pai mantivera-se sem qualquer companhia feminina.


Agora repousava ali, sem dar acordo, preso a uma parafernália que substituía alguns órgãos. Apenas respirava por si.


Maria sentiu as lágrimas deambularem pela face. Aproximou-se do pai e bem junto ao ouvido e ciente que este jamais a escutaria, disse:


- Obrigado meu pai!


O corpo inerte agitou-se de forma invulgar, numa réstia de coragem de quem vai dar o seu último suspiro. Maria escutou então em surdina para seu imenso espanto:


- Obrigado eu!

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