O relógio
Devagar, muito devagar entrou no escritório que era acima de tudo a sua biblioteca, o seu refúgio, tal era quantidade de livros espalhados pela pequena divisão.
Tricotou por entre as resmas de livros e sentou-se finalmente à secretária, também ela repleta de publicações. Ao centro destacava-se, contudo, uma velha máquina de escrever.
Da janela entrava um sol acolhedor que parecia aquecer a pequena sala. Numa parede de lado dormia um velho relógio, herança do pai e que já fora do avô. Olhou-o e percebeu que estava parado… havia muitos anos! Desabafou:
- Então companheiro… há quanto tempo que ninguém te dá corda, hem!
Depois virou-se para a sua “Hermes 2000” e devagar foi carregando o carro com uma nova folha de papel. Rodou o rolo lentamente e acertou a folha, como sempre o fizera. Ao contrário de todos os outros escritores que conhecia, ainda não se adaptara às novas tecnologias. Daí a sua velha companheira.
Na verdade a sua editora através de carta solicitara que escrevesse algo para a época do Natal desse ano.
- Um conto de Natal? Mas eles estarão mais senis que eu? – questionou na altura.
Voltou a pegar na missiva que recebera, releu e suspirou. Um suspiro profundo que saiu naturalmente, tal parecia vir a ser o frete.
Não obstante a sua já provecta idade ainda assim mantinha a escrita como modo de vida. O sucesso das suas obras residia num passado já longínquo, mas aquele ainda lhe trazia alguns proveitos pecuniários. O suficiente para ir sobrevivendo.
Agora estranhamente surgira este invulgar pedido. Escrever um conto de Natal…
Ele que havia trinta anos não comemorava a quadra. Desde que os seus filhos haviam partido de casa sem nunca mais darem sinal de vida. Depois seguira-se a Laurinda…
Desta jamais fizera luto. Achara que não seria necessário. O amor pela mulher morava ainda no seu coração e não nas vestes negras…
- Mas vou escrever sobre o quê?
Olhou novamente o relógio de parede e perguntou-lhe:
- Companheiro silencioso… que me dizes? Tens alguma ideia?
Afastou-se da secretária de forma a poder abrir e vasculhar a gaveta. Após alguns minutos encontrou o que pretendia. Ergueu-se devagar e procurou um banco no meio de tanto livro, atirou alguns ao chão, até o encontrar. Finalmente subiu para ele e abrindo a portinhola de vidro enfiou a chave no buraco respectivo e rodou. Um som característico fez-se ouvir e ele deu 12 meias voltas até que a chave não rodou mais. Seguiu-se o outro buraco e repetiu as voltas e os gestos. Finalmente pegou no pêndulo e fê-lo balancear.
Escutou um tic-tac compassado e nivelado. Desceu do banco e sorriu…
Voltou à sua secretária e começou a bater as teclas. Puxou o rolo para cima para reler o que acabara de escrever e repetiu em voz alta:
- Um conto de Natal, o relógio…
De súbito uma voz grave, mas calma disse atrás dele:
- Como podes gostar tanto de relógios se nunca os pões a trabalhar?
Ele reconheceu a voz. Uma lágrima correu pela face mas não se voltou. Continuou a bater nas teclas da sua máquina de escrever, todavia desta vez ia repetindo em voz alta o que escrevia:
- Fizeste-me falta meu filho. Sabes do teu irmão?
Outra voz soou:
- Estou aqui meu pai!
O escritor continuou a escrever:
- Este ano o espírito de Natal tem a voz dos meus filhos.
O relógio bateu finalmente as horas, pela primeira vez em trinta anos.
Algo de autobiográfico neste conto?
ResponderEliminaré que relógios e máquinas de escrever combinam com o que conheço de ti...
Já não venho a tempo de desejar um bom natal, mas ainda posso falar do ano que hoje começa. Um feliz Ano Novo, com saúde e amor.
O conto refere três coisas biográficas.
ResponderEliminarDelas apenas acertastes em duas.
Faltaram os dois filhos.
Quanto ao resto é pura ficção. Mas gostaste da história?
Sim, gostei da história. Apenas acho que devias arrumar os livros...
ResponderEliminarAssim tem mais charme! Eheheheheh!
ResponderEliminargosto do simbolismo dos relógios parados :)
ResponderEliminarlindo conto, José
Obrigado Joana.
ResponderEliminarOs relógios são a minha perdição e paixão. Ainda há pouco tempo recebi outro. Todos de corda.Tenho uma série deles... (quase todos parados). E por causa disso escrevi há alguns anos este texto: http://ladosab.blogs.sapo.pt/16417.html
Este conto surgiu assim do nada... mas saiu bem.
Já agora que é feito de ti?
A escrita requer persistência, sabias?
Um beijo grande deste quase idoso (mas hiperjovem de espírito).
(Só um aparte: a minha avó paterna chamava-se Joana e curiosamente nunca dei este nome a nenhuma das minhas personagens. Vá lá saber-se porquê...)
Essa avó teria um carácter tão forte que não pediu ainda que o nome mudasse de personagem;) quanto a mim, escrevo menos do que gostaria... Infelizmente o tempo que me resta ao chegar a casa, tende a ser tão escasso quanto os segundos dos seus relógios parados :) e a inspiração acomoda-se no cansaço. mas sempre que posso tenho actualizado o blog. Um abraço !! E mais contos desses que venham
ResponderEliminarSabes que os meus contos são assim uma espécie de terapia.
ResponderEliminarQuando os escrevo parece que fico mais limpo por dentro. Gosto muito da tua presença por aqui. Sei-te fiel à minha pobre escrita e isso apraz-me.
Felicidades.