Contos tontos! - 6

Pegou na chávena com a mão direita, entrelaçou o dedo indicador na asa mas foi com a mão esquerda que conseguiu levar a chávena à boca. Ainda assim tremia...


A doença de Parkinson tornara-se tão evidente que já não conseguia esconder. Assumiu por isso o mal como algo normal. Também a cabeça já dava sinais evidentes da doença.


Devagar bebeu o chá quente enquanto olhava para a paisagem que se abria à frente da sua janela. O dia morria lentamente. No horizonte as cores variavam entre o amarelo e o laranja coladas a um anil perfeito.


De dentro da casa ouviu alguém chamar pelo seu nome:


- Doutor Acácio...


Já sabia para o que era... Os medicamentos... Aqueles que o punham a dormir e o inibiam de olhar aquele horizonte.


- Doutor Acácio...


A voz feminina apareceu por detrás e ele nem se incomodou a olhar para ela. 


- Estão aqui os comprimidos para tomar. Vá, vamos lá!


Não se mexeu. A enfermeira deu a volta ao cadeirão e colocou-se defronte do idoso. Foi com a serenidade que a idade o permitia que o doente declarou:


- Durante dezenas de anos mantive esta casa de pé. Ninguém fazia nada sem me perguntar primeiro a minha opinião. Fiz fortuna sim mas nunca esbanjei um tostão.


Finalmente olhou fixamente para a jovem e terminou:


- E foram os meus filhos, que nunca fizeram nada na vida, contratá-la somente para me tapar a paisagem. Desvie-se... deixe-me ver o pôr-do-sol.


A enfermeira desviou-se, rodou nos calcanhares e ficou outrossim a mirar a paisagem.

Comentários

  1. Acho que os títulos não correspondem ao que são de facto. Tudo menos tonto.

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  2. Concordo com a Cris!
    E eu fiquei sem palavras perante tamanha LUCIDEZ do Doutor Acácio e capacidade de a descrever do autor!

    Aqui quem conta um conto, não lhe acrescenta um "tonto"!

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  3. Dá então uma dica para mudar o nome.
    Fico a aguardar!

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