Contos tontos! - 5

- Lembras-te quando namorámos as tardes tão saborosas que passámos?


Ele olhava para o portátil e parecendo distante disse:


- Isso foi há tanto tempo. Ainda te lembras?


- Se me lembro... Tenho tantas saudades desses dias... bons!


Ele recostou-se no grande cadeirão e erguendo os olhos do computador, perguntou:


- Gostarias de repetir?


Os olhos dela incharam-se de alegria e devolveu:


- Claro que sim... E tu não?


- Eu também. Mas para isso tens de largar os comprimidos que te estão a definhar.


Ela baixou os olhos repentinamente e iniciou uma torrente de lágrimas.


Ele não se enterneceu com o choro. Era sempre assim!


Quando parou, recomeçou como se nada tivesse passado.


- Lembras-te quando casámos as nossas noites de leituras...?


Ele olhou-a com rispidez e respondeu, seco:


- Lamento, mas já não me lembro!


 

Comentários

golimix disse…
Cruzes!
Tens uma veia dramática que atinge. Mas é mesmo isso que queres, né?

Fiquei com pena dela. Ninguém adoece porque quer. E um problema mental é talvez das piores doenças...
José da Xã disse…
Desculpa rapariga não pretendi magoar ninguém.

A sério achas que é muito duro?
golimix disse…
Às vezes a realidade é dura. Tu escreves um pouco sobre esse retrato.

Não sei porquê mas este arrepiou-me, talvez porque me coloquei no lugar dela...
Perdida, com culpa, sabendo que não está bem mas que quer subir do fundo do po3 onde se encontra mas não tem a capacidade de nadar sozinha...
golimix disse…
Errata ( catano para o tablet) - poço
José da Xã disse…
E eu que vivi com essa dura realidade?
Sei muitas vezes do que falo.
Nunca tive qualquer depressão mas vi a minha mulher cair e erguer-se. Ajudei-a sempre naquilo que pude.
A vida nem sempre é fácil.
golimix disse…
Triste é quando não têm ajuda e ainda por cima são abandonadas agravando o quadro.
Conheço uma professora do ensino superior, excelente profissional e inteligente, que simplesmente pirou.
José da Xã disse…
Mas acredita que os medicamentos não resolvem! Especialmente quando as pessoas são novas.
Então qual o remédio? Perguntar-me-ás... Nâo sou psiquiatra nem psicólogo para apresentar soluções milagrosas. Uma coisa é certa: tudo parte da nossa maneira de ver a própria vida. Ou melhor... a forma como aceitamos o que a vida nos tem para nos oferecer.
Mesmo nos momentos menos bons! É aqui que reside o segredo... Aceitar.
(Um belo tema para um post, não achas?).
Lídia disse…
Boa pergunta: Será que a capacidade de resiliência é suficiente para nos proteger sempre?
Gostaria de acreditar que sim!

Bom fim de semana!


José da Xã disse…
Também eu, Lídia, Também eu!

Boa semana!
Lídia disse…
A propósito, publicaram ONTEM isto:

http://observador.pt/2015/06/22/feliz-sempre-segundo-harvard/


José da Xã disse…
Já li e é muito curioso.

Obrigado pela referência.
Lídia disse…
Citei-o porque o primeiro conselho vai ao encontro do que dizias:
"Aceitar o que a vida traz"

Cris disse…
Ah, então é daqui! Foi esta a conversa. Tu tens tantos blogs, homem!
Bom, uma coisa eu sei, só se pode ajudar quem quer ser ajudado. Engraçado que no outro dia estava-se a falar de um artigo que dizia que a depressão é apenas uma inflamação que se cura com um anti-inflamatório. Há estudos nesse sentido. Ainda sabemos tão pouco do ser que somos...
Os meus comentários contigo tendem a ser longos, ai!
José da Xã disse…
Be free.

Não há limite para uma boa conversa. E adoro conversar contigo.
Também tenho os meus momentos menos bons. Mas quando escrevo tudo se esvai na ponta dos dedos que tocam este teclado.
E as tuas palavras são um autêntico balsamo.
Sinto-me um privilegiado.
Obrigado Cris.
José da Xã disse…
Lídia,

Sempre aceitei. Com muita dor interior é certo. Por vezes alguma revolta. Mas no fim... aceitava.
Creio mesmo que a minha fé religiosa deu-me o lastro suficiente para percorrer este caminho.
Contento-me com pouco, mesmo muito pouco. Porque no fundo, no fundo não sou dono de nada. Minto... apenas dos meus sonhos. Estes ninguém me rouba.

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!