O Padre Leandro

Chegou aos ouvidos de um Bispo que numa das suas paróquias os fiéis eram cada vez menos. Restavam somente algumas beatas muito velhas e teimosas. E homens… nem vê-los. Era certo que a povoação ficava longe de tudo, enfiada num vale onde só se chegava de cavalo e através de um só carreiro que serpenteava por entre carrascos, aroeiras, giestas e alguns tímidos pinheiros. Mas nada disto servia de razão para haver tão pouca gente na eucaristia. A constante nomeação de novos padres para a paróquia não resolvera o problema.


Foi então que o chefe eclesiástico se lembrou do Padre Leandro. Este era o perfeito exemplo do que não deveria ser um padre. De verbo muito fácil era frequente algumas desavenças com paroquianos, quase sempre por causa de saias. E nem os constantes avisos o mudavam. Outro problema era o jogo, tendo sido por diversas vezes apanhado em lugares impróprios para alguém da sua estirpe. Valia-se então da família com imensa fortuna pessoal, para fazer face a alguns contratempos… pecuniários.


Afável e esperto fora enviado por diversas vezes a alguns locais para resolver problemas mais complicados nas paróquias. E foi assim que o Bispo deitou mão deste recurso humano para fazer face à falta de fiéis na dita aldeia.


- Caríssimo Leandro, tenho uma missão espinhosa para si…


- Diga sua Eminência o que pretende deste humilde servo de Deus!


Explicadas as razões e o que se pretenderia fazer, Leandro tomou a sua égua pela arreata e partiu nesse mesmo instante para a dita povoação. Após longos quilómetros e uma noite mal dormida ao relento, Leandro começou a descer para a aldeia. Passou junto à igreja, mirou-a de alto a baixo e prosseguiu. Logo a seguir percebeu um estabelecimento e parou a montada. Permitira-se tirar a batina antes de sair para a aldeia enrolando-a num velho alforge da égua. Tal como calculava e esperava entrou numa taberna. A sala era pequena e nela pairava um odor misto de vinho azedo e tabaco. Por detrás do balcão encontrou um homem corpulento mas simpático:


. Boa tarde cavalheiro…


- Boa tarde!


- Que deseja tomar?


- Antes de beber necessito comer. Tem alguma coisa?


O outro coçou a cabeça e respondeu:


- Só se for um chouriço assado.


- Ora nem mais! Isso mesmo… e um jarro de tinto se faz favor. Que eu vou-me sentar ali.


Dirigiu-se para o canto da sala meia escura. Do outro canto dois homens olharam-no com curiosidade e depois com desdém. À sua frente copos de vinho meio cheios, que beberricavam com lentidão.


Ainda mal tinha chegado logo outro cliente entrou. Mas este dirigiu-se para a mesa com os outros dois e declarou:


- Acabou-se o jogo…


- Então porquê? – avançou um dos outros.


- O Jaquim não vem. Andas nas batatas lá para os lados da Lagoa Estreita…


Um dos que estava sentado deu uma palmada no tempo da mesa e declarou:


- Logo hoje eu queria a desforra de ontem…


Leandro escutou o diálogo e finalmente achou que seria tempo de meter o bedelho:


- Desculpem-me mas escutei a vossa conversa e parece-me que têm falta de um elemento para jogarem. Mas se não se importarem estou aqui disponível…


Os outros olharam-nos com espanto e um deles observou:


- Você é de cá?


- Não…


- Está de passagem?


- Ainda não sei… - e aproveitou para deitar mais fogo no lume – depende dos meus adversários de cartas…


- Mas você sabe jogar?


- Mais ou menos sei jogar de tudo um pouco. Aprendi com um velho avô… - mentiu.


Os clientes olharam-se e desejosos de jogar aceitaram a proposta.


- Então venda daí, já que sabe jogar.


Era meio-dia. À porta da igreja havia um papel a comunicar que a missa desse dia seria às seis da tarde. Havia assim muito tempo para jogar e… saber pormenores.


Leandro mostrou-se grande jogador para contento do parceiro e arrelia dos adversários. O chouriço que veio foi distribuído por todos assim como diversas rodadas de copos de vinho. Na taberna foram entrando e saindo clientes que miravam o grupo do canto que exibia de uma anormal algazarra. Ainda por cima com um estranho. Alguns chegavam mesmo a perguntar ao patrão quem era o novo elemento, mas a resposta era invariavelmente a mesma:


- Não sei quem é, nem donde veio. Chegou aqui e passado pouco tempo estava na mesa a jogar.


O tempo passou lento mas por volta das cinco e meio Leandro declarou:


- Este é por hoje o meu último. Ainda tenho que fazer!


A verdade é que acabada a partida o jovem padre cumprimentou todos da mesa e anunciou:


- Amigos, amanhã aqui à mesma hora!


Saiu, foi buscar a montada e dirigiu-se à igreja à vista de todos, que haviam vindo à rua para dar fé dos movimentos de Leandro. Às seis horas dava inicia à eucaristia e percebeu quão espinhosa seria a sua missão. Contou doze mulheres muito velhas. Não apareceu mais ninguém.


No dia seguinte à hora aprazada entrou na taberna de negra batina vestida e cumprimentou com alegria:


- Boa tarde amigos… então vamos a um joguinho?


- Boa, boa tarde… senhor prior… - gagejou um dos jogadores.


- Leandro, o meu nome é Leandro.


- Mas o senhor é o padre… - avançou outro.


- E isso quer dizer o quê? Que não posso jogar às cartas com os meus amigos, nem beber uns copos? Ora deixem isso para lá e dêem as cartas…


Durante muito dias o padre apareceu para jogar, sempre à mesma hora. Era já falatório na aldeia a sua conduta, especialmente nas mulheres mais velhas… E de doze paroquianas na missa o número começou a descer. Mas Leandro não se incomodava… Na sua mente fervilhava uma ideia…


Naquela tarde a chuva viera visitar a aldeia e os homens ociosos juntaram-se na pequena taberna. Era já conhecida a arte do padre nas cartas e todos queriam ser dele, parceiro. A tarde decorreu mais barulhenta do era costume mas quando chegou a hora da missa Leandro levantou-se e disse:


- Bem está na hora de irmos à missa…


Os homens olharam uns para os outros não entendendo onde Leandro pretendia chegar. Mas este sem olhar para trás e imaginando o que se estava a passar nas suas costas, acrescentou:


- Não se esqueçam… às seis em ponto.


A armadilha montada durante tanto tempo disparara agora sobre o povo aldeão. Muitas palavras proferidas entre dentes mas ninguém arredou pé da taberna. Nessa tarde Leandro teve ainda menos gente na sua igreja. Porém no dia seguinte o padre não apareceu na taberna. Os outros bem que aguardaram a sua chegada mas sem resultado. Viram-no somente à tarde a entrar para a sacristia pela porta lateral. Ao fim de quatro dias de ausência Leandro reapareceu na taberna como se nada tivesse acontecido e a alegria reinou na taberna. O próprio taberneiro agradeceu em silêncio a presença do prior tal era a força do negócio.


Quando bateu as cinco e meia no sino da igreja Leandro avisou:


- Este é o último jogo, depois vamos à missa…


Quando a partida finalizou o padre levantou-se da sua cadeira e comunicou:


- A missa é às seis em ponto.


Nessa tarde e para admiração de muitas paroquianas a igreja teve, pela primeira vez, mais homens que mulheres a assistir.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!