Duas pistolas - XL
I
O temporal da noite não deixava quase ninguém descansar. Ora era o vento que sibilava por entre as frestas das velhas portadas de madeira ou a chuva que jorrava do céu em torrentes diluvianas e batia na telha vã. No quarto tentavam descansar de mais um dia de trabalhos Jacinto e a mulher Ofélia. Na sala dormiam insensíveis à intempérie os três filhos do casal: Josué, Nelson e Armindo.
De quando em vez a casa de pedra era sacudida por um trovão. Ofélia rezava baixinho enquanto Jacinto pensava na palha coberta. As trovoadas na aldeia não eram frequentes mas quando chegavam tornavam-se tenebrosas. Mesmo que alguém assumidamente não tivesse receio do fenómeno, não deixava de respeitar.
Jacinto ergueu-se de supetão da cama e perguntou:
- Não ouviste bater à porta?
Ofélia receosa e sonolenta respondeu:
- Acreditas que alguém sai à rua com este tempo?
Jacinto teimou:
- Tu tás mouca mulher… Ouvi bater à porta!
Num gesto decidido saltou para dentro das calças sujas, puxou os suspensórios e mesmo descalço foi confirmar a desconfiança. Pegou num coto de vela, acendeu-o devolvendo ao quarto uma luz ténue e mortiça. Encaminhou-se para a porta quando ouviu alguém do lado de fora chamá-lo:
- Jacinto oh Jacinto!
A desconfiança estava confirmada. Retirou as duas ripas que seguravam melhor a porta da intempérie, rodou a chave e escancarou a sala ao temporal da noite. Um vento forte penetrou no lar e trazendo com ele a visita inesperada. Jacinto olhou para o homem e espantou-se. Refeito do choque de alguém com aquela borrasca se atrever a sair de casa, perguntou:
- Manel? Que fazes aqui a esta hora e com este tempo?
O outro não esperou pelo convite, entrou e sentando-se numa carunchosa cadeira, largou um saco de serapilheira no chão enquanto sacudia as roupas ensopadas. A respiração parecia ofegante e só ao fim de algum tempo Manuel respondeu à questão:
- Desculpa Jacinto aparecer assim, mas estou metido num grande sarilho…
Jacinto e Manuel eram amigos desde sempre. Não havia entre eles qualquer segredo. A não ser…
- Manel que fizeste desta vez? – a preocupação na voz do anfitrião era evidente.
- Nada eu não fiz nada – respirou fundo e voltou – apenas estou a tentar ajudar um camarada de tropa.
- Hum cheira-me que vem aí algo que não vou gostar de ouvir.
- Eu não fiz nada! Foi o Luís Carriço que se meteu numa embrulhada. Acho mesmo que matou um tipo…
- Matou um tipo?
- Creio que sim… Mas diz que foi em legítima defesa. Mas o problema vem agora…
- Mau…
- Ele pediu para fazer desaparecer… as pistolas dele! – e apontou com o queixo o saco que jazia na lage.
- Pistolas?
- Sim as armas do crime.
- E que tenho eu a ver com isso?
- Ele não te conhece e tu podias fazer desaparecer as fuscas…
- Tu já viste o que me estás a pedir? Que seja tão criminoso quanto esse teu amigo. E mais, como pensaste que eu poderia resolver o assunto? Eu tenho uma família a sustentar - e apontou para os filhos que dormiam.
O outro baixou a cabeça quase ao nível dos joelhos e afirmou:
- Estou metido numa grande sarilhada. E não posso dizer ao homem que não. Safou-me tantas vezes de ser apanhado quando eu me desenfiava… que agora fiquei refém deste pedido.
Jacinto coçava a cabeça. Também ele devia favores a Manuel… Mas o pior era imaginar um sítio onde esconder tais armas. De súbito lembrou-se:
- Mas ele querer recuperar esses brinquedos?
- Não, não. Ele pediu-me que as fizesse desaparecer para sempre. Para sempre ouviste?
- Ouvi, ouvi… Para isso só há um lugar…
- E qual?
- Tenho numa das minhas fazendas um algar muito fundo. Um dia caiu para lá um borrego e por lá ficou… Aquilo é impossível de lá chegar, ao fundo. Nem sei quantos metros tem… Talvez seja o lugar ideal…
Manuel levantou-se num ápice e agarrando-se ao amigo deu-lhe um abraço, dizendo:
- Nunca mais esquecerei este favor, ouviste? Jamais…
Jacinto afastou o encharcado amigo, comunicando:
- Amanhã vamos lá!
Mas Manuel tinha outras ideias:
- Amanhã não, agora!
Jacinto olhou-o e declarou:
- Tu achas que não tenho mais nada que fazer… Preciso descansar. E não sei se reparaste chove a potes.
- Melhor ainda. Assim ninguém nos vê…
Manuel tinha alguma razão. Se era para esconder as armas aquela hora com aquele tempo era preferível do que durante o dia. Mas a fazenda ainda era longe e de acesso difícil por entre carrascos e medronheiros. Por fim assentiu:
- Está bem, vamos lá. Deixa-me vestir.
Jacinto saiu da sala onde as crianças dormiam serenamente mesmo após o longo diálogo enquanto Manuel se aproximou da lareira negra onde um tição de oliveira muito velha ainda ardia, devagar.
Jacinto apareceu finalmente preparado para a chuva dizendo:
- Tu vais comigo agora…
Esta indicação não agradou a Manuel, mas perante a forma autoritária como Jacinto falara, aceitou o destino sem nada dizer e pegou no saco.
A porta abriu-se, o vento penetrou na casa e os homens penetraram na tempestade.
II
A Primavera desse ano mostrava-se deslumbrante. Após um Inverno rigoroso, as flores e a erva nasciam pelos prados com profusão. A candeia das oliveiras mostrava-se já com grande fulgor prevendo-se uma produção em grande quantidade. Por todo o lado charruas rasgavam as terras moles. A vida aldeã em toda a sua pujança…
Jacinto agarrado ao cabo do arado, fendia a terra vermelha, atapetada por um manto de erva verde e viçosa que o gado não comia tal era a fartura, num vai-vem permanente e laborioso. Os seus pensamentos vadiavam pela sua juventude e um assobio leve e feliz acompanhava-o.
Estava tão embrenhado na sua tarefa que nem viu dois homens que se aproximaram vindo da estrada de pedra. Vestiam fatos e usavam gravatas negras e pareciam ter caras de poucos amigos. Quando Jacinto deu por eles já ambos estavam muito perto dele. Estancou a correria, sacou do velho lenço, secou o suor que corria pela testa e cumprimentou os visitantes:
- Bom dia… cavalheiros!
Os outros nem se dignaram cumprimentá-lo. Foram directos ao assunto:
- É o Jacinto?
- S… sou… – gaguejou assustado o lavrador.
- Conhece o Manuel da Cruz?
- Sei lá… Conheço tantos Manéis…
- Oiça… não brinque connosco. Conhece ou não o Manuel?
Jacinto atemorizou-se com os homens. Na verdade havia diversos com aquele nome da aldeia, mas raramente se sabia o apelido. Levou a mão à boina que lhe tapava as cãs e devolveu:
- Eu conheço diversos homens com esse nome… Agora com esse apelido…
Um dos homens aproximou-se ainda mais e quase sussurrando, perguntou:
- Jacinto nós queremos saber das armas…
- Quais armas? – O coração de Jacinto batia agora de forma acelerada.
- Ó companheiro… nós sabemos de tudo. O teu amigo Manuel deu com a língua nos dentes… e denunciou-te.
- Denunciou-me como?
- Não te armes em esperto comigo, ouviste?
Jacinto lembrou-se da tal noite de borrasca passada havia alguns meses e da história do Manuel. No tempo que servira no exército ouvira falar daquela gente: agentes de uma polícia especial, com métodos de fazer falar até um mudo. Arrepiou-se ao imaginar o que teriam feito ao Manuel. Serenamente foi dizendo:
- No inverno o Manuel Carroceiro, meu amigo de infância, pediu-me para guardar um saco, mas eu não sei o que ele trazia… - mentiu.
Perante esta última declaração os homens acalmaram mas não desarmaram:
- De certeza que não viste o que o saco tinha?
Jacinto teria de mentir agora de forma mais veemente. O amigo denunciara-o mas o camponês aguentava-se. Foi então dizendo:
- Claro que não, meu caro senhor. O Manel apareceu lá em casa e pediu-me para deitar fora aquele saco. Até lhe perguntei porque não o deitava ele ao que me respondeu que não tinha onde… Depois no dia seguinte fui a uma propriedade minha e deixei lá o saco…
- E agora vamos lá buscá-lo.
O coração de Jacinto quase parou. Seria impossível lá entrar e… sair. Um nervoso miudinho apoderou-se dele mas foi explicando:
- Deitei um saco num buraco que é tão fundo, mas tão fundo que ninguém lá chega…
Os outros riram-se e dando-lhe uma palmada quase amigável nas costas de Jacinto foram acrescentando:
- Agora temos uma boa razão para lá ir medir a profundidade.
Jacinto tremia. Interiormente amaldiçoou a hora em que abrira a porta ao amigo. Um sarilho complicado que teria de resolver, pois os homens não pareciam ser gente para esperar. Finalmente avisou:
- Mas eu não tenho cabos suficientes para lá ir ao fundo. Vão ser necessários muitos metros de corda…
- Faz como entenderes… Queremos as armas cá fora. E depressa!
- E tem de ser hoje?
- Se não for hoje vais passar uma noite aos calabouços de modo que não fujas…
Jacinto olhou a serra, depois o céu anil e finalmente baixou a cabeça e assentiu:
- Bom então deixem-me ir a casa guardar o gado e buscar baraças.
E dirigiu-se ao caminho donde teriam vindo os homens. Estes desviaram-se o suficiente para deixar passar o arado pesado e frio e seguiram o camponês. Em breve chegaria a hora do almoço mas ele nem tinha fome. Por isso disse à Ofélia:
- Não contes comigo para almoçar.
A mulher assustou-se:
- Mas o que se passa homem?
O marido não pretendia preocupá-la:
- Coisas de homens. Já venho.
Sem dar mais nenhuma explicação Jacinto foi ao estábulo, onde as vacas já comiam serenamente e procurou por entre muitas alfaias diversos cabos e uma velha lamparina de azeite. Finalmente pronto partiu ao encontro dos homens que o aguardavam no caminho para a sua fazenda. Aqui chegados dirigiram-se para um monte de mato. Jacinto retirou alguns ramos deixando a descoberto no chão um buraco com certa de um metro de largura. Todos espreitaram para dentro do buraco.
Jacinto preparou-se. Passou a corda por um tronco de uma oliveira. Atou os cabos uns aos outros e finalmente acendeu a lamparina. Finalmente atou o cabo à sua cintura e preparou-se para descer. Mas antes avisou os homens:
- Quando sentirem a corda a ser puxada com força é o sinal para me tirarem lá de dentro.
- Claro amigo. Nós não lhe queremos mal. Só queremos as armas. Traga-as e vamos logo embora…
III
Jacinto já nem sabia se havia de ter medo, só queria sair daquele pesadelo o mais depressa possível. Em silêncio fez uma breve oração. Nunca fora de evidentes práticas religiosas mas acreditava que só Deus o poderia ajudar.
O tempo passava e a impaciência nos homens passou a ser evidente.
- Vamos lá a despachar isto que não quero dormir aqui – disse um deles.
Devagar o aldeão ajeitou-se e preparou-se para descer. Mas antes acendeu a lamparina que prendeu com uma baraça ao velho cinto que apertava as calças. Devagar embrenhou-se no buraco escuro. Ia à sorte pois não imaginava a que profundidade teria de chegar. Mesmo descendo lentamente depressa ficou sem luz. O buraco era estreito e foi descendo encostando-se à parede fosse com os pés ou com as costas. Num ápice a entrada passou a ser apenas uma lua, cada vez mais pequena. Começou a sentir frio mas nãos parou. Ainda não olhara para baixo desde que iniciara a descida pois a sua visão ainda não se habituara totalmente à escuridão.
Num segundo tudo de alterou. As paredes pareciam ter fugido e ele não tinha onde se apoiar. Passou a baloiçar. Foi a altura de perceber o fundo. E este parecia… perto, já ali a um metro, pouco mais, de si. Deu-lhe ânimo esta visão que desceu mais depressa sempre a baloiçar. Sentiu pelo som que a lamparina poisara no chão.
- Terei chegado?
Mas a dúvida permanecia ainda. Quando os pés tocaram o chão duro. Pegou rapidamente na luz e procurou o saco. Olhou em redor e a dois metros encontrou-o. Pegou-lhe e atou-o a si com vigor de forma a não perdê-lo.
Depois aproveitou e olhou à sua volta aquilo que a luz mortiça lhe deixava ver. E maravilhou-se. Das pedras de tantas cores escorria água. Um arrepio atravessou-lhe o corpo. Era o sinal de regressar. Espreitando o chão reparou nas diversas ossadas dos animais que para ali haviam caído. Uma aventura fantástica que ele guardaria para um dia contar aos seus netos.
Puxou a corda com força e num instante sentiu-se a ser içado. Muito mais devagar que a descer. Quando voltou a sentir as costas protegidas ajudou a elevar-se até à superfície. O dia caía já. Os homens esperavam-no. Ajudaram Jacinto a sair e este desatou o saco e entregou-lhes a razão daquela misteriosa aventura.
- Ora então cá estão elas. Bom trabalho! – disse um dos homens pegando no saco sem o abrir.
Jacinto não queria saber de mais nada, desejando somente regressar a casa. Perguntou então enquanto recolhia todo o cordame:
- Posso ir embora?
- Claro. Cumpriste a tua parte nós cumprimos a nossa.
Jacinto pecou em todos os apetrechos e partiu pela vereda abaixo. Já suficientemente longe desviou-se do caminho que costumava levar e encetou por um carreiro diferente. Mais à frente saltou o muro e entrou num terreno mal tratado tal era o mato. Conhecendo o caminho embrenhou-se no arvoredo até encontrar um monte de pedras. Aqui rodeou o marouço e escolhendo uma só pedra retirou-a do lugar. Debaixo apenas um buraco. Meteu a mão lá dentro e retirou um cabo. Puxou-o uma quantidade de metros até que da ponta aparecesse um velho saco de serapilheira. Abriu o saco e reparou nas pistolas ainda em bom estado.
- O Manel tinha razão. Aqueles tipos não são de fiar.
E voltou a atirar o saco para o buraco.
Publicado também aqui
Gostei muito! Só consegui acabar agora de ler depois de ter cá vindo algumas vezes... ninguém me deixa em paz....
ResponderEliminarTive pena de ter acabado...
Neste blogue tens muitas histórias deste género.
ResponderEliminarVai lendo, pode ser que gostes.
Já gostei
ResponderEliminarUpps!
ResponderEliminarNão sabia que já havias lido.