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A mostrar mensagens de julho, 2014

21 dias na aldeia (8)

VII - Noite   Agora muda o tempo. Acabou o calor. O dia foi tão quente quão ventosa é a noite! E a noite escura e triste mete tanto temor, Que a sair à rua, pouco há quem se afoite!     O vento sopra rijo. Vento frio, gelado, Que mais frio é ainda, só porque vem do Norte. E embora a noite assim, para alguns seja feia, Para mim, triste, pobre desventurado, Embora o vento sopre rijo, gelado e forte, Ainda mais bela faz esta já bela aldeia!   Eu sou como Junquiero! Gosta da noite assim! Luar! Estrêla! Vento, soprando a entrar em mim!

21 dias na aldeia (7)

VI - Crepúsculo   O sol vai-se a esconder, já para além da serra. A noite tomba um véu sôbre o dia da terra.   Enxada ao ombro, volta o camponês ao lar. Deixou de trabalhar. "Agora, cavador, podes ir descansar!"   Os bois, puxando o carro, voltam à povoação. Vêm mais ajoujados, o carro vem carregado. E o boieiro à frente, também já vem cansado. Agora já não canta, pica-os com o aguilhão.   A mulher pôs a mesa, Acendeu a candeia. E aquela luz na aldeia, Inspira-nos tristeza!   O bébé acordou. Ei-lo agora abrincar. O crepúsculo baixa! É a noite a tombar!   Nas paredes branquinhas, de branca e alva cal, Já não se reflecte o quente sol de verão. E a falta de luz na linda povoação, Torna ainda mais bela esta noite estival.   Só luz dentro das casas. A pedregosa rua Só é iluminada pelos clarões da lua!

21 dias na aldeia (6)

V - A aldeia   É tarde! O sol passou a linha do meio-dia. A aldeia descança, digere o elimento. Ah! Mas daqui a pouco, daqui a um só momento, A aldeia acordará e acabará o dia a trabalhar. Os homens, no campo, a fornear, P'ra que o mato bravio não seque a oliveira, Não lhe vá fazer mal, n~ºao a possa matar! Elas ficam em casa, lá na lide caseira.   O camponês descansa e senta-se um pedaço Naquele pedregulho ao pé da oliveira. Quem dera fôsse noita e sentado àlareira, A ver ferver a sôpa numa panela de aço. Mas não! Não poderá voltar ao casario Da aldeia onde vive, onde vê o seu lar. Enquanto o seu trabalho ele não acabar, Enquanto não queimar todo o mato bravio.   Ânimo camponês! Pega na tua enxada, E destrói essa erva, essa amaldiçoada. Trabalha camponês! Vê que o azeite é ouro, E a erva matará todo esse teu tesouro!   E o cavador trabalha, sempre, até ao sol posto. Vamos camponês! Em casa, a tua espôsa, Olha que ela trabalha, olha que ela não gosa! Ela também transpira o suor do ...

21 dias na aldeia (5)

IV - Esquecimento     Vive 'inda em minha mente aquele dia Em que te conheci ó terra bela! Povoação tão humilde, tão singela, Como outra, até aí não conhecia.     Minto! Que não foi essa a minha ideia! Porque era noite, e a lua já raiava. E como eu a paisagem não olhava, Então, ó terra bela, achei-te feia!     Passou o tempo e apareceu o sol. Amanheceu. A montanha imponente. Refectia em sua encosta descente Os raios da estrêla, do farol!     Subi à alpendrada e olhei a paisagem. Na véspera, de noite, eu vira a fealdade! Agora, de manhã, não sentia saudade Da terra que deixara. Parecia-me miragem.     E eu que amava Lisboa! Como eu a achava linda! Quando eu a deixava, ó que saudade infinda! Uma tristeza grande, enorme, me invadia! Eu amava Lisboa! Fôsse noite ou dia.       Tu tinhas para mim o encanto da cidade, Da terra onde nascera, dessa terra natal Que eu idolatrava, com enorme amizade. Eu amava Lisboa! Amava - por meu mal!       Um dia saí dela! Nos primeiros momentos Recordava...

21 dias na aldeia (4)

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III - Prelúdio   Eu sou como Junqueiro! Gosto da noite assim! Luar! Estrêlas! Vento, soprando, a entrar em mim!     Por isso, ó Vento amigo, ó noite encantadora, Ó estrêlas que bailais, ó luar fugitivo, Animal que vigiais, ó alma de poeta, Fazei que me invada a mesma poesia Que invadiu Camões, o Épico imortal! Fazei que me inspire a mesma musa amiga Que inspirou Junqueiro, o mago rimador, Que transformou Bocage no Elmano divino E que fez de João o poeta infantil!     Sei que não serei célebre, como foi o amões, Como o foi Junqueiro e como o foi Elmano, Como João de Deus e tantos outros.     Mas eu desejo e quero mostrar ao mundo enorme Que as musas me inspiram que o meu estro não dorme!     Quero mostrar às gentes, que no planeta existe Num recanto da terra um pobre, um miserável, Talvez homem no corpo, criança no pensar, Que nunca foi ingrato, que sabe agradecer Aos que o acolheram como se um seu filho ele fôra. E quero agradecer à terra pequenina, De poiuco casario, de gente hospital...

21 dias na aldeia (3)

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II - Poeta   A versejar rimas pobres, A pobres versos rimar. Ah! Vós, poetas bem nobres Bem me podeis condenar!     Que sou eu? Um visionário, Um louco, um sonhador. Um doido extraordinário, Mísero versejador!     Para quê? Porque tentar Os poetas imitar?     É o vento forte soprando... É a oliveira vibrando... As estrêlas cintilando...     É a alma versejando Que assim me faz pensar... É a minha alma inquieta que me faz pobre poeta...    

21 dias na aldeia (2)

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  I – O Vento   Um raio de luar espreita a povoação Por detraz do cabeço, orgulhoso e altivo Quere saltar o monte alto, deixar de ser cativo, Ultrapassar as grades, ser livre da prisão. Há estrelas também! E há também o vento. Que as faz bailar lá em cima no escuro firmamento!   E sopra o vento forte! E espreita o luar! E bailam as estrelas brilhando, a cintilar!   Soa ao longe um latido dum cão bem vigilante. Que é? Se não é gente que vem para roubar! É nos ramos da oliva o vento a perpassar A fazê-los tremer, num trémulo vibrante.   E o vento que acorda o bom do cão amigo, Que faz tremer os ramos das olivas despertas É ‘inda o mesmo vento, o mesmo Eolo antigo Que nos antigos tempos levou às descobertas, Que levou os heróis, por esse mar além, A construir impérios e estradas abertas Aos humanos gentios da nossa pátria-mãe.   É esse mesmo vento que numa hora calma, Me incita a versejar e acorda a minha alma!    

21 dias na aldeia - Introdução (1)

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Os poemas que a seguir publico não são da minha autoria. Assina o autor como Eduardo Monteiro – nem sei se é algum pseudónimo. Encontrei estes textos no meio de papéis muuuuuuuuito velhos. Datam de Setembro de 1946.   Publico-os porque lhes achei muita graça e faço-o tal e qual o manuscrito. Com eventuais erros ortográficos (ou não!!!).   Acabei por incluir fotos dos originais do textos.     Introdução   Maria, não digas nada Eu te peço o grande favor Um cajado e uma pedra São as armas, ai! do pastor!                                 Popular   Editado no dia 7 de Julho de 2014