Contos Breves - A Jaqueta Perdida - XIII

 


-       Então até amanhã! – Despede-se com um aceno, que beijo na rua é coisa de gente sem vergonha na cara.


-       Até amanhã. Agora vê se te embebedas por lá – roga a Armanda, triste pelo ósculo desejado mas ausente.


O homem toca a mula carregada e parte no sentido do horizonte onde o dia desponta silenciosamente trazendo afazeres e canseiras. A mulher fica à porta vendo o marido desaparecer na charneca por entre giestas e estevas.


Julião assobia uma moda. Dum velho marmeleiro que cresce à beira da estrada, corta uma pequena verdasca que vai pacientemente descascando com o seu fiel canivete. Atravessa a ribeira a vau e corta para a aldeia vizinha.


Nos alforges do animal há peixe fresco, que caminha num passo lento mas decidido. Prefere o carreiro de terra enlameada às pedras irregulares e falsas. Por baixo das ferraduras resvalam ainda assim pequenos cálculos.


À entrada da primeira povoação, retira da casaca uma velha gaita – em tempos usara um búzio - e sopra com saber. O som sai ruidoso e roufenho mas depressa se transforma numa melodia conhecida. Como por magia, as mulheres surgem de todos os lados e rodeiam o homem.


O bufarinheiro percorre durante todo o dia todas as aldeias das redondezas, mas quando cai a noite já nada sobra. Feliz pela boa e inesperada venda, Julião pára finalmente numa taberna para repousar. Lá dentro encontra o Zé da Noiva, o Chico Tropa e o Manuel Rola, todos grandes amigos dos caminhos e bebedeiras. Com eles inicia mais uma viagem de segredos que há muito deixaram de o ser e mentiras que ninguém acredita. E tudo acompanhado por vinho, muito vinho.


A lua já vai alta, quando os quatro amigos decidem abandonar a tasca. Todos carregam demasiado vinho no bucho e no espírito, mas Julião é o pior de todos. Irritante e aborrecido, pisa e repisa as mesmas palavras. Estas saem quase imperceptíveis, tamanha é a bebedeira. Nem a água da chuva que entretanto inicia a cair, consegue compor apropriadamente o ramalhete. Há quem, num laivo de lucidez instantânea, recuse voltar à taberna para aquilo que seria um último copo. Diz simplesmente:


-       Vou para casa... - e abandona o grupo em direcção ao lar.


Os outros olham-no espantados, riem-se e comentam em tom de chalaça:


-       Vai, vai senão a patroa ralha contigo.


Pairam no ar as risadas sonoras dos outros amigos. Finalmente cada um segue o exemplo do primeiro e regressam todos às suas moradas... Resta unicamente Julião...


A noite é agora iluminada por relâmpagos brilhantes. A trovoada rasga-se finalmente à água e esta precipita-se abundantemente. O vendedor procura a mula, aparelha-a e põe-se a caminho. Não obstante o álcool turvar-lhe o pensamento e as ideias, ainda reconhece o trilho de regresso. Na jaqueta do almocreve há bom dinheiro e aquele tenta resguardar a vestimenta da chuva intensa e joga-a para cima da mula e tapando-a com uma velha canastra. Mas o caminho é irregular por entre pedras e carrascos, obrigando a naturais solavancos em cima dos alforges.


Cai a jaqueta aos pés do dono.


O viajante pára. No solo há agora algo que ele quer agarrar. Mesmo com a bebedeira, tem a real noção do seu estado e sabe que se se dobrar para a frente perderá naturalmente o equilíbrio e cairá na terra molhada. Flecte então os joelhos, agacha-se e agarra finalmente a veste. Sacode-a da lama e não reconhecendo a sua própria roupa, saúda:


-       Ena que bela jaqueta. Vai para aqui...


E lança-a novamente para cima da albarda. Continua então o regresso a casa. Mais à frente a jaqueta cai uma vez mais. Ao mesmo tempo ilumina-se o céu com novo relâmpago. Julião nota que no chão há roupa caída. Nova ginástica para pegar a peça de vestuário.


-       Mais outra… - exclama. Alguém anda a perder a roupa por aí!


A água ensopa-lhe a restante vestimenta, mas mesmo assim não sente frio. Ainda está a mais de uma légua de casa e a chuva não parece querer dar tréguas.


-       Raios partam a maldita chuva! – Resmunga o homem.


A pequena casaca cai mais quatro vezes e em nenhuma delas o peixeiro reconhece a sua própria roupa.


Quando finalmente se contavam por sete as vezes que a já bem encharcada jaqueta caíra, Julião em tom de desabafo comenta para si mesmo ao pegar uma vez mais na roupa tombada no chão molhado:


-       Não quero mais roupa! Já encontrei seis. Esta fica aqui – e atirou para cima duma carrasqueira a pequena veste.


Quando chegou, já quase madrugada, recolheu o animal no estábulo, entrou em casa e dirigiu-se ao quarto e sem acordar a patroa, deitou-se. A cabeça rodopiava qual dança, prevalecendo ainda os efeitos etílicos.


Pela manhã Armanda acorda o marido com maus modos:


-       Então homem, onde está o dinheiro da venda de ontem? Preciso de ir à loja e não tenho um centavo.


Julião abre os olhos. A luz entra no quarto por uma pequena janela, suficiente para o incomodar. Dói-lhe a cabeça e da boca exala um odor pestilento último vestígio da bebedeira da véspera. Contudo consegue ainda responder:


-       Está na jaqueta em cima da albarda da mula.


-       Eu vou lá buscá-la... – Armanda dá meia volta e vai até ao palheiro onde repousa o quadrúpede. Aqui procura a casaca, mas após investigação e sem nada encontrar entra uma vez mais em casa gritando.


-       Mas tu julgas que eu sou parva? Não vi a casaca nem a carteira...


-       Pois bem à falta de uma hão-de estar lá sete, digo bem sete jaquetas. Seis que eu encontrei ontem no caminho mais a minha….


Armanda não sabe de há-de rir ou chorar. Entretanto barafusta:


-       Mas tu pensas que não tenho mais nada que fazer que aturar-te. Chega de brincadeiras e diz-me lá onde está a casaca mais a carteira!


Julião acorda finalmente. Num furioso e repentino gesto põe-se de pé. Veste as calças ainda molhadas e sujas da noite chuvosa anterior e corre ao palheiro. A mulher espera o marido de braços cruzados à soleira da porta da sua entrada, como que adivinhando o resultado.


Sai finalmente o homem esbracejando e barafustando.


-       Juro por Deus que encontrei seis casacas no chão enquanto vinha para cá.


Incrédula a mulher responde:


-       Mas se pensas que acredito nessa história estás muito enganado...


-       Ora porra... Armanda. Até me obrigas a falar mal. Foi tão verdade como estarmos aqui os dois... Até houve uma que atirei para cima de uns carrascos e nem a trouxe...


Num relance a companheira logo percebeu o porquê da falta da fatiota e logo foi atacando:


-       Ah ladrão que deitaste a tua própria jaqueta fora. Tal era a bebedeira que nem conhecias o que era teu. E sabes ao menos onde a deitaste?


O pobre do Julião nem queria acreditar. Seria verdade o que a mulher lhe dissera? No seu tenebroso pensamento o dia anterior acabava na casaca lançada fora. Temendo que alguém descobrisse a veste com a carteira recheada, logo se pôs a caminho até ao local onde calculou que estaria a roupa abandonada. A princípio não a viu e o seu frágil coração bateu mais depressa. Depois embrenhou-se mais no meio do mato e acabou por encontrar o que procurava. Arrancou-a aos ramos dos carrascos e apalpou-a. Sentiu o volume da bolsa do dinheiro e retirou-a. Abriu-a e contou o numerário. Estava todo.


Respirou finalmente de alívio e regressou a casa feliz, trauteando uma música alegre.


Armanda chora, amaldiçoando a sua sorte enquanto se aproxima o marido. Este agita no ar a bolsa recheada com ar de triunfo e consegue finalmente que os lábios da mulher se abram num sorriso aliviado e feliz.

Comentários

Fátima Soares disse…
Está soberbo! Adorei especialmente a parte das quedas sucessivas da jaqueta, porque ilustra tão bem o estado bem "acompanhado" do nosso Julião... E realmente vem depois o bocadinho hilariante: Para que queria ele 7 jaquetas? Tal não é o poder de Baco que mistura as ideias dos homens e lhes faz serem perdulários ou quiçá generosos. Então! Outro que encontrasse a jaqueta já que ele tinha 6 o pior é quando a dormência do vinho passa... Podia ter-lhe corrido mal a brincadeira. Digo e repito gostei imenso e realço mais uma vez que parece que vemos a mula a avançar os alforges a balançar e o Julião a tocar a sua moda. Beijinho João
José da Xã disse…
A história tem um fundo de verdade. Mas sabe o que mais custa nestes contos? É inventar nomes. Nomes que sejam normais numa aldeia e não numa cidade. Hoje e tendo em conta que Verniz Negro gosta vou colocar mais um conto o livro e outro que escrevi no outro blogue.

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!