Água da minha aldeia

Entre pedras sem polimento,
a água vai-se escoando.
Tem o rio no pensamento,
nada a detém. Vai voando.

É um risco simples na terra,
sulco vergado a tanta passagem.
É um vale recortado na serra
no coração de uma pastagem.

Ao longe vistumbra o azul,
destino final de outras tantas.
Sai-lhe ao caminho um paul,
silêncio de vivas mantas.

Foge lesta e indomável
à impossível prisão.
Felina sente o intolerável
dos que lhe roubam o pão.

Mistura-se como quem foge
que não vê mais o que é
Quer regressar a casa inda hoje
chamou uma nuvem para até.

Do cimo tão perto do céu,
corre apressada mais o vento.
Tomba por fim como um véu,
no vale de amoras e alento.

Quero ser eu, água, apenas e só!


 


Também pode ser lido aqui.



 


Comentários

Fátima Soares disse…
Bonito, Josá. A imagem de ser água simplesmente. Livre e pura. Sem impedimenteo de ida ou de chegada. Sem ter de pedir licença para correr. Boa semana.
José da Xã disse…
No fim de contas o ciclo da água desde a gota à nuvem e finalmente chuva. Já nem me lembrava deste poema...

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