A periquita
Ana nasceu deficiente, quase profunda. Cresceu e viveu entre enfermarias de hospital, salas de cirurgia e a cama no seu quarto. Sempre apoiada e amada pelos pais e os dois irmãos. Entre todos havia uma cadência de cuidar, lavar, dar de comer ou simplesmente ficar ali lado a lado com uma criança que aos dezasseis anos nunca soubera sorrir. Naquela manhã de primavera branda com o Sol a aquecer Ana, após a costumada azáfama diária com a sua higiene e alimentação, foi levada para a varanda. Do lado de fora havia vida, gente, ruídos citadinos, crianças a gritar numa escola contígua ao prédio, passarada em alegre esvoaçar nos plátanos no jardim defronte, um mundo estranho para a menina. O olhar de Ana raramente se mexia… Um ar vazio, longínquo, nem triste nem alegre, invariável. Sempre fora assim. Nenhum médico conseguira descobrir se Ana seria capaz de ouvir, mas perceberam que talvez conseguisse ver, mas tudo sem muitas certezas. No velho jardim diante do prédio as árvores haviam...