Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2026

A periquita

Ana nasceu deficiente, quase profunda. Cresceu e viveu entre enfermarias de hospital, salas de cirurgia e a cama no seu quarto. Sempre apoiada e amada pelos pais e os dois irmãos. Entre todos havia uma cadência de cuidar, lavar, dar de comer ou simplesmente ficar ali lado a lado com uma criança que aos dezasseis anos nunca soubera sorrir. Naquela manhã de primavera branda com o Sol a aquecer Ana, após a costumada azáfama diária com a sua higiene e alimentação, foi levada para a varanda. Do lado de fora havia vida, gente, ruídos citadinos, crianças a gritar numa escola contígua ao prédio, passarada em alegre esvoaçar nos plátanos no jardim defronte, um mundo estranho para a menina. O olhar de Ana raramente se mexia… Um ar vazio, longínquo, nem triste nem alegre, invariável. Sempre fora assim. Nenhum médico conseguira descobrir se Ana seria capaz de ouvir, mas perceberam que talvez conseguisse ver, mas tudo sem muitas certezas. No velho jardim diante do prédio as árvores haviam...

Assobio mágico

Era um daqueles dias de invernia pesada. A chuva começara a cair dias antes e não parara. O vento soprava com tamanha pujança que alguns pinheiros na encosta da serra já haviam tombado. Com tamanha intempérie ninguém ousava sair de casa. Até cães e gatos evitavam a rua mesmo que a fome lhes roesse as entranhas. As terras planas ensopadas até onde podiam transformavam-se em mares de água onde as pinhas e as bolotas boiavam, quais cascas de noz. Os dias plúmbeos sucediam-se e o Sol tardava a mostrar a face. Nem mesmo no escuro da noite, a Lua mostrava a sua luz. Luciano seria o único da aldeia a quem a chuva não fazia diferença. Até poderia ajudar no seu árduo trabalho de arrancar as infindáveis pedras de um chão a querer dar mais que feno e silvas. Pela manhã vestia o velho capote e sem qualquer temor entrava naquele mundo de pluviosidade  permanente. Sempre que podia vinha comer a bucha a casa, mas a desoras. As pedras saiam melhor com a terra molhada que seca e quando se...

Mão certeira!

Desde infante quando lhe perguntavam o nome, sempre respondia: - Lino, chamo-me Lino. Alguns não questionavam mais, porém outros ousavam chegar mais além e teimavam: - Lino de Adelino, Aldino… - Virgolino – acabava por responder de mau modo. Carregava ainda: - Mas com ó! Eis assim o pequeno Lino que não gostava do seu verdadeiro nome. Desde miúdo que odiava o epiteto dado por um padrinho, que nunca conheceu. Diria mais tarde que aquele deveria ser burro ou parvo para entregar um nome destes a uma criança. Virgolino nasceu numa aldeia na encosta de uma serra escarpada e atapetada de enormíssimos pedregulhos e penedos. Alguns destes tinham até formas curiosas e nem era necessária muita imaginação para se rever num qualquer outra forma mais conhecida, como era o Penedo da Cabeça da Cabra, a Pedra Boi ou o Cabeça de Elefante. O rapaz conhecia todas as pedras e nunca se perdia se por lá andasse na vadiagem. Amiúde saía de casa sempre acompanhado de um rafeiro feio, sujo, m...

Despedida!

Corro as longas cortinas Sobre este belo destino. Cerro as janelas finas Vivo longo desatino.   Mais de cinco centenas De textos publicados. Alguns ingénuos apenas Mas sempre acarinhados.   Para outros trilhos parto Não em busca da luz do Sol. Aqui e agora reparto Um gesto, um mero girassol.   Uma dúzia de bons anos Tantos e tantos perdidos. Saio sem remorsos, danos Só agradeço aos sentidos.   Remato finalmente Com a feliz sensação Escrever é ser doente De vida e de paixão.

Ao fim de mim

Não quero fama nem proveito Diz este pobre escriba de versos. Continuar mesmo sem jeito, A esgalhar textos travessos.   Ser poeta não é apenas isto, Deixar as palavras fugirem. É qual oleiro, criar um registo Das muitas almas a abrirem.   Não serei, nem bom nem mau, Poeta de enormes feitos. Como o tocador de berimbau Que não sabe outros preceitos.   Vivi anos a tentar escrever O que ninguém ousara dar luz. Passou o tempo mui a correr Nem percebi qual a minha cruz.   Qual amor, qual paixão A varrer-me todo por dentro. Ficou dorido, sim, o coração Por ser só ou apenas o centro.

O Bravão e o bravo!

A ribeira das Duas Pedras nasce no meio da serra entre dois enormes penedos graníticos que a baptizou. Durante todo o ano a água sai do ventre da terra com maior ou menor força, todavia sempre límpida, fresca e com força de vida. Se no Inverno o caudal farto vai descendo a encosta até encontrar a foz na ribeira dos Carvalhos, já no Estio o fio fresco fica naturalmente preso nalguns lameiros contíguos à linha de água, que agradecem. Porém a maior característica da ribeira é ser a divisão natural de duas enormes propriedades. Augusto Maciel era dono de uma enorme Quinta que tinha como limite a leste, a boa ribeira. Do outro lado vivia Vicente Peres um outro fazendeiro sempre muito cioso dos seus terrenos e mais ainda das suas partilhas. Certo é que estes dois homens… detestavam-se. Nunca ninguém, em boa verdade, soubera da razão do diferendo. Alguns aventavam a ideia de ser um problema antigo envolvendo saias, outros falavam de coisas de heranças e partilhas antigas e havia ainda quem ou...

O Bravão e o bravo!

A ribeira das Duas Pedras nasce no meio da serra entre dois enormes penedos graníticos que a baptizou. Durante todo o ano a água sai do ventre da terra com maior ou menor força, todavia sempre límpida, fresca e com força de vida. Se no Inverno o caudal farto vai descendo a encosta até encontrar a foz na ribeira dos Carvalhos, já no Estio o fio fresco fica naturalmente preso nalguns lameiros contíguos à linha de água, que agradecem. Porém a maior característica da ribeira é ser a divisão natural de duas enormes propriedades. Augusto Maciel era dono de uma enorme Quinta que tinha como limite a leste, a boa ribeira. Do outro lado vivia Vicente Peres um outro fazendeiro sempre muito cioso dos seus terrenos e mais ainda das suas partilhas. Certo é que estes dois homens… detestavam-se. Nunca ninguém, em boa verdade, soubera da razão do diferendo. Alguns aventavam a ideia de ser um problema antigo envolvendo saias, outros falavam de coisas de heranças e partilhas antigas e havia ainda quem...

Os seis anos da Olívia!

Os dias que antecederam o aniversário da Olívia, foram vividos de forma frenética pela cachopita. Faria seis anos e para ela aquela idade surgia como um marco de vida, como se tudo ao seu redor passasse a ser diferente. Doce ilusão! Naquele Domingo acordou muito cedo e em vez de procurar a árvore de Natal como fizera no ano anterior foi buscar os puzzles que lhe haviam oferecido na festa do Advento. Espalhou-os em cima da mesa da cozinha e escolheu um dos sacos com dezenas se não centenas de peças recortadas e com a gravura para se guiar. Estava tão embrenhada que nem notou que pai e mãe a olhavam havia uns minutos embevecidos naquela atitude de menina que sabe o que quer. E menos criança, mais rapariga pronta a entrar num longo e sinuoso caminho de vida e para o qual ainda não tinha real consciência. Foi o mano Gustavo que aos gritos de “mããããããããeee” a fez desviar a atenção do seu puzzle. Levantou os olhos, notou o pai e no mesmo instante: - Paaaaaaiii! – e correu para os seus ...