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A mostrar mensagens de maio, 2025

A versão do Policarpo

Dizem que tenho na família alguém que ficou muito conhecido pelas suas intervenções em estórias para crianças. Mais… dizem até que falava com os humanos o que eu desde já duvido… Era muito mais fácil falar com um boneco de madeira… Mas enfim cada um acredita no que quer. Digo eu! Pela minha parte calhou-me uma estória, se não rocambolesca, pelo menos invulgar, quase demasiado invulgar para ser verdade. O que aconteceu foi isto. Andava eu muito feliz da vida a fazer-me à minha nova namorada, agitando com toda a pompa, circunstância e competência as minhas asas quando sem perceber como tal aconteceu, vejo-me fechado numa coisa muito estranha e da qual não conseguia sair. Mais… afastaram-me da minha apaixonada que estava prestes a ceder aos meus reais e sonoros encantos. Logo ali pensei que tudo isto fora coisa de um rival que tenho e com o qual já tive algumas demandas rijas e assaz sonoras. Só que pela noite percebi que não fora ele, certamente a aprisionar-me. O animal humano é muito e...

O grilo

Naquela manhã quase estival Margarida chegou à escola bem cedo com o intuito de apanhar Matilde antes das aulas. Desde que fora proibido o uso de telemóveis dentro do recinto escolar os encontros transformavam-se em quase desencontros. Assim que transpôs os portões correu para a larga escadaria e viu a amiga sentada num degrau a ler e quase sem fôlego chamou: - Matilde, Matilde bom dia, tenho uma coisa muita fixe para te contar. - Bom dia ‘miga, conta, conta! A recém chegada respirou fundo tentando recuperar a normalidade da respiração, para finalmente: - Este fim de semana fui passá-lo com a minha avó na aldeia dela… Num exercício empolgado e vibrante contou toda a história do canário da avó, desde a sua libertação até à manhã seguinte quando surgiu dentro da gaiola de forma voluntária. Matilde naquele seu olhar entusiasmado ria tapando a face numa alegria genuína. Quando Margarida terminou o relato a amiga apenas soube dizer: - Que estória linda… Quem me dera ter coragem para fazer i...

A versão do Óscar

Vocês podem não acreditar, mas a minha Flauzina era a galinha mais bonita lá da quinta. Quando a vi pela primeira vez, já era assim um rapaz meio espigado, dono de um belo vozeirão e com muita saída entre as cachopas que por ali cirandavam. Só que naquela manhã quando a vi… ui… foi paixão à primeira vista. Só que ela não estava muito virada cá para o jovem. Preferia um galo pedrês, muito mais velho, com uma crista vermelha enorme e aquela imensa penugem, que quase nos assustava quando abria as asas. Estranhamente desapareceu de um dia para o outro, sem deixar rasto e nunca mais lhe pusemos a vista em cima. Todos os dias e mais do que uma vez, uma velhota aparecia com sacos e alguidares velhos para distribuir comida por todos nós. Ali naquele enorme espaço vedado por uma rede alta e muito fina, conviviam sem qualquer problema nem bravatas coelhos, patos, gansos, perús, galos e galinhas. De vez em quando aparecia um gato matreiro na esperança de filar algum pinto, mas os gansos davam log...

O galo

Deitou-se a desoras! Algo que vinha fazendo havia algumas semanas. A morte recente do seu avô, no fundo o homem que o criara e educara após a morte prematura dos seus pais num trágico acidente de viação, deixara-lhe profundas marcas. Afogava assim as mágoas em inúmeras garrafas de cerveja ou outras bebidas. Depois já alcoolizado pedia um táxi e atirava-se para a cama tal como vinha. Naquela manhã, porém, acordou mais cedo do que imaginaria. Um cantar de um galo despertara-o. Num segundo pensou que estava novamente na velha aldeia com o avô, onde os animais eram bem madrugadores. Olhou em redor e pela desarrumação do quarto percebeu que estava em casa, na cidade onde nascera e agora aterrara contra vontade. Entretanto o galaró não se calava e Nuno pretendeu saber onde estaria tal animal já que estava no meio de uma cidade. No fundo a sua relação com a vida rústica ainda não se diluíra no álcool bebido. Ergueu-se a custo da cama e foi à casa-de-banho enfiar a cabeça debaixo da torneira d...