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A mostrar mensagens de dezembro, 2022

Hoje convido eu! #4

A troca de mensagens por correio electrónico com a Maria do Cantinho da casa  originou na frase  "Pai, isso pode ser demais..." e para a qual escrevi o texto seguinte. Orlando era um homem bom! Amigo do seu amigo dedicava à palavra acordada um sentido muito especial: jamais voltava atrás! Naquela noite após o jantar chamou o genro para o lado e disse quase em surdina: - Preciso de si amanhã de manhã. Pode ser? O genro adorava o sogro e logo respondeu afirmativamente. Como o velho Orlando não dera mais nenhuma resposta, Júlio avançou: - Que se passa amanhã? - Apareceu hoje aí um homem que me quer comprar o pinhal.... - O da quinta do Espinheiro? - Esse mesmo! Mas eu só quero vender uma parte. Os de cima da encosta estão ainda muito delgados. - A que horas vamos? - Logo pela fresquinha. - Conte comigo. Na alvorada seguinte caía uma chuva fina de vez em quando sacudida por um vento feroz. Encontraram-se ambos na cozinha onde tomaram o pequeno almoço, calçaram depois os botins de...

Confissão

Ela olhava-o com aquela ternura que o meio século de casamento obrigava. Os olhos dele mantinham-se fixos em lugar nenhum. Sem expressão, frios, longínquos. Sentado num velho sofá tinha uma manta a aconchegar-lhe as pernas inertes. Os sucessivos AVC's haviam-no atirado para aquele marasmo e imobilidade. Sentada à sua frente, a mulher passava a colher numa espécie de papa que lhe punha na boca e que ele engolia, provavelmente sem saber. - O que eu não dava, homem, para ouvir de ti uma palavra. Uma só que fosse. Continuava a passar a colher na papa e a depositá-la na boca. - Tu que eras tão tagarela, tão falador... que me disseste tantas vezes que me amavas... Mais uma colher. - Não sei se me ouves ou não. Os médicos dizem que não. Estou a falar para ti como se estivesse a falar para mim, mas não sei se me escutas... Gostavam tanto de saber! Limpou-lhe a boca suja com doçura e carinho.. - Ao fim de todos estes anos só agora sou capaz de te dizer que te amo. E também sei que gostarias...

Hoje convido eu! #3

Num comentário o meu amigo Manuel dono  deste recente blogue lançou a ideia " A vida é uma doença incurável"  para mais um escrito. Desde aquele dia a cabeça anda num turbilhão para dar a volta ao desafio. Que ficou como segue:   Assim que introduziu a chave na porta nem necessitou rodar pois aquela abriu-se de repente, surgindo a D. Hortense naquele seu vozeirão de pregão de rua e braços no ar para o abraçar e pespegar-lhe diversos beijos repenicados enquanto dizia: - Parabéns doutor Olímpio, muitos parabéns! Já soube da novidade!  - Ei… ei… ei… D. Hortense, calma aí… como me chamou esta manhã? A antagonista parou, franziu o sobrolho como lhe surgisse uma dúvida e respondeu: - O… Olímpio! - Muito bem… e porque me chama outra coisa? Fez-se luz na senhoria gorda e simpática… - Já percebi… Mas o que quer que jhe diga? Fez-se Doutor… tenho de o tratar assim. Olímpio fez um gesto quase de enfado para ela regressar: - Foi assim com os outros… há-de ser consigo também… - D. Horten...

Reencontro com o Natal

Resposta  a este  desafio Os dias que antecederam aquele Natal foram de enorme azáfama para que à hora tudo estivesse impecável e não houvesse falhas. Havia casado ainda naquele ano e aquele seria o primeiro Natal das duas famílias. No dia da consoada, pela manhã, Lurdes recebeu um inesperado telegrama dando conta da ausência do seu irmão, no jantar. Invocou uma desculpa qualquer que não satisfez a anfitriã. Mais tarde recebeu uma chamada da mãe a desculpar-se com uma dor (que provavelmente não teria) para faltar também ao jantar. Lurdes percebeu a ideia e a artimanha, mas nada disse ao marido. Já muito perto da hora da consoada comunicou a ausência da sua família. Todos os presentes lamentaram, mas Lurdes preferiu assim! Sabia das razões das faltas. Mas esse seria um assunto só dela. No ano seguinte voltou a convidar os sogros, mas não a sua família. Na noite de consoada tocou o telefone. Era a mãe: - Boa noite, ainda estás viva? - Boa noite mãe. Sim estou… porque quer saber? - Há um ...

Hoje convido eu! #2

Desta vez calhou em sorte à  Maria  que logo no dia seguinte ao ter publicado o meu primeiro texto deste desafio, apresentou esta bela frase:   Não sou daqui. Sou de todo o lado! Logo ali fiquei com mais um desafio para escrever! Que segue abaixo...   Era uma daquelas noites de forte invernia. Justino caminhava devagar pois a chuva mal deixava ver o trilho à sua frente. Um pé escorregava de vez em quando na lama quase fazendo perder o equilíbrio, outras era aquela pedra que fugia sob os pés cansados Partira da sua aldeia havia muitas semanas. Perdera-lhe o conto do tempo e dos quilómetros caminhados. Assim que entrava num povoado procurava trabalho por troca de cama e comida. Não queria dinheiro. Só viveres. Dois, três dias e logo partia para mais uma jornada. Tanto poderia ser de muitos ou poucos quilómetros. Mas aquela noite estava terrível. Ao longe pareceu ver finalmente uma ténue luz. Foi-se aproximando tanto quanto a chuva e o vento deixavam para aquela tornar-se mais visível par...

Ernesto!

Resposta  a este  desafio Naquela manhã fria de fim de Outono, a professora Sofia entrou na escola primária com uma ideia. À hora costumada penetrou na sala, trazendo atrás de si os pequenos alunos. Estes foram-se distribuindo pelas costumadas carteiras e aguardaram que a professora iniciasse as lições. - Bom dia crianças! - Bom dia professora Sofia - respondeu a turma em uníssono. - Ora bem... aproxima-se o Natal, não é? Portanto vou pedir que escrevem sozinhos ou com a ajuda de familiares ou amigos o que é para vocês esta quadra, o que é para vocês o Natal. Para a semana começam as férias e eu gostaria de saber as vossas ideias. Um breve reboliço correu a sala. Todos as crianças agitaram-se com a palavra Natal, exceptuando Ernesto que ficou tal como estava sem qualquer reacção. A professora notou a indiferença, mas aguardou pelo texto do aluno. - Não é preciso escrever muito... mas acima de tudo sejam sinceros! E agora vamos à aula! Três dias mais tarde Sofia aproximou-se da Henrique...

O Avô Natal

Resposta a este desafio Olhou o vetusto relógio que nunca dormia nem necessitava de corda, estrategicamente colocado num corredor de pedra, do velho castelo e percebeu que o patrão ainda não aparecera nessa manhã. Era a primeira vez que o São Nicolau não acordava primeiro que toda a gente. Era véspera de Natal e o velhote atrasara-se. O secretário do Pai Natal era um homem assaz baixo, muito gordo, caminhando com passos rápidos e curtos. Talvez por isso parecia que corria ou rebolava e daí ser conhecido entre todos pelo Rebola. De farta barba cinza, havia no Castelo quem jurasse a pés juntos que o secretário era mais velho que o próprio Pai Natal, contudo ninguém tinha coragem de lhe perguntar a idade. Sempre pronto para uma boa briga com o pessoal, só o São Nicolau conseguia dizer-lhe ou pedir coisas sem escutar dele uma só palavra de azedume. Naquela manhã Rebola aproximou-se preocupado do quarto do Pai Natal e encostou as suas enormes orelhas à porta. Não ouvindo qualquer barulho co...

Hoje convido eu! #1

Introdução Os diversos exercícios de escrita em que participei obrigaram-me a puxar da imaginação para responder aos ditos. Acabados aqueles tenho tido alguma dificuldade em imaginar novas estórias. Foi num breve rasgo de alguma lucidez que me veio à ideia convidar outros bloguers a desafiarem-me apresentado uma simples frase, uma palavra ou até um tema e sobre o qual irei escrever. Tentarei que este exercício dure pelo menos um ano, sendo que será publicado a cada dia um de cada mês um texto novo! Começo com a Ana D. que me apresentou a seguinte frase:  Como são grandes as coisas pequenas! Eis o que saiu.   Quando o pai o chamou há muito que estava acordado. Aquele dia seria certamente diferente, pois cumprir-se-ia a promessa que o avô lhe fizera no dia em que fizera 13 anos. - Um destes sábados o teu pai que te leve à minha humilde oficina. Penso que gostarás de a visitar… O velho Arthur, com agá como sempre o seu pai escrevera o seu nome, tornara-se um dos maiores mestres de relojo...