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A mostrar mensagens de novembro, 2022

Salvador!

O silvo agudo ecoou na charneca. Os corpos endireitaram-se gemendo. Aquela dor sempre ali ferrada... nas cruzes! Salvador no alto dos seus nove anos ainda não sofria das maleitas dos mais velhos, mas imaginava o que seria andar a vida toda a trabalhar de cabeça virada para a terra, enquanto o capataz burro e bruto andava de costas direitas e ganhava quiçá o dobro. O sinal avisara o pessoal da hora de comer. O miúdo largou a enxada e correu lesto para a frente da fila onde a cozinheira Arminda distribuia a sardinha da barrica, uma a cada homem e mulher. O miúdo tinha por hábito receber um pedaço de broa que a mãe lhe costuma entregar àquela hora da bucha. Porém naquele dia no horizonte não viu ninguém. O tempo de comer escasseava e Salvador vendo-se sem outro conduto acabou por comer a sardinha seca sem mais nada. Vingou-se na água-pé que a patroa fazia questão de fornecer aos trabalhadores e num caldo desenxabido onde umas reles meias folhas de couve boiavam. Mesmo assim o jovem comia ...