Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2022

Entre chegadas e partidas! – #6

Deitada no convés do iate, Rosália sentia o doce balançar da embarcação encostada à amurada da marina. Ao longe podia observar o Morro da Espalamaca onde sobressaía o célebre Monumento em honra de Nossa Senhora da Conceição. À direita conseguia ainda perceber a ponta da montanha do Pico. Tentou adormecer naquele sobe e desce lento aconchegada por um sol quente, não obstante algumas nuvens cinzentas. De olhos fechados ainda não esquecera as manhãs madrugadoras para chegar à pastelaria a horas. Depois a faculdade com aulas, trabalhos e mais uma série de coisas a que se obrigava a fazer. Por fim Virgílio… Um homem maduro, de bem com a vida e ao que parecia rico. Mas para a jovem o dinheiro era algo secundário. Percebeu que alguém entrara no veleiro e ergueu-se. Virgílio osculou-a na testa. - Que estava a minha arquitecta a arquitectar? – e deixou que caísse uma pequena gargalhada. - Estou a arquitectar a maneira de te dar uma notícia… - Ui se mete arquitecturas não deve ser nada simpático...

Entre chegadas e partidas! - #5

Teriam passado mais de dois meses desde aquela manhã em que vira pela última vez Virgílio. Não poderia também esquecer que fora muito afoita naquele beijo… Talvez ele fosse daqueles homens de mentalidade antiga e pouco abertos… Certo era que jamais o vira. De vez em quando pegava no cartão de visita que ele lhe entregara da primeira vez e de telemóvel em punho preparava-se para lhe ligar, impulsionada de um desejo de saber mais ou quiçá pela saudade. Todavia depressa arrefecia os ânimos e jamais lhe ligara temendo que ele a repudiasse. Aquela manhã parecia igual a tantas outras com muitos pequenos-almoços a voarem. Sozinha corria e despachava os clientes de forma rápida, mas eficiente. Estava na copa a cortar umas fatias de pão para torradas quando o telefone fixo da loja tocou. Admirada por ser raro acabou por atender: - Estou pastelaria “Vai um café?” quem fala? - Bom dia Rosália… Sou o Alberto da segurança. Tenho aqui uma pessoa para lhe entregar uma encomenda. - Uma encomenda? Para...

Entre chegadas e partidas! - #4

( continuação   daqui )   Rosália não se espantou com o cumprimento tão matutino, diria mesmo que o aguardava. Virou-se e deu de caras com Virgílio.  Este desmanchara-se num enorme sorriso, para depois teimar: - Parabéns pelo seu trabalho de ontem. Então aquela entrada de improviso, deixou todos de boca aberta. Muito bem! - Ohhh. Simpatia sua... - tentando desviar o tema da conversa - e hoje para onde vai hoje? - Vou sair no voo das 9 e 10... - Paris Orly, portanto! - Pois, mas sinceramente não me apetece. A jovem arquitecta tentou saber mais e havia uma questão que lhe bailava, mas nunca tivrera coragem de proferir. Porém desta vez: - Explique-me o que faz para andar sempre no laréu? Virgílio calculou que um dia a questão ser-lhe-ia colocada e respondeu sem rodeios: - Agora? Bom agora não faço nada... tinha acabado de vender a minha empresa quando cheguei naquela manhã de S.Francisco, lembra-se? - Muito bem! - Nesta altura vivo do dinheiro que ganhei com esse negócio. Quase trinta ano...

Entre chegadas e partidas! - #3

(continuação daqui ) A última semana havia sido de loucos. A correria matutina para abrir o estaminé a tempo e horas, depois a correria para casa onde se embrenhava até tarde na leitura e eventuais correcções do seu trabalho de final de curso. Numa quarta feira entrou muito cedo no anfiteatro da faculdade. Olhou aquele espaço onde tantas e tantas vezes escutara aulas de professores consagrados, assistira a debates fantásticos, mas que naquele dia estava reservada para si. Um arrepio atravessou a espinha. Sacudiu as mãos como se quisesse limpar-se das dúvidas e principalmente dos receios. Experimentou todo o equipamento informático e de projecção. Tudo a correr bem! Na tela branca que ficara à frente do enorme quadro de ardósia preto projectava-se já um diapositivo apenas com uma frase: “Bem vindo!” Ainda esteve para “vainãovai” para apagar aquele slide, mas depois lembrou-se duma frase que lera algures: quanto mais alterares um texto pior fica ! Olhou o relógio nervosa. Faltava uma hor...

Entre chegadas e partidas! - #2

( continuação daqui ) Virgílio não se admirou com o conhecimento que a jovem demonstrava da origem dos voos aterrados. Quem trabalha nestes locais num ápice ganha esta valência. Pegou no trólei e antes de partir retirou da carteira um pequeno rectângulo que entregou à empregada, dizendo: - Se um dia tiver necessidade de mudar de emprego… ligue-me! Pode ser que consiga algo melhor… que vender croissants. A rapariga aceitou o cartão, leu-o para logo acrescentar: - Senhor Andrade agradeço a sua simpatia, mas se tudo correr como desejo e espero daqui a um mês terei a minha licenciatura e procurarei outro trabalho mais condizente… Virgílio abriu os olhos numa admiração e devolveu: - Então temos aqui uma trabalhadora estudante? - Eu diria que é mais uma estudante trabalhadora… - E o que está a estudar? - Arquictetura… - Olha… muito bem… desculpe a ousadia… como se chama? - Rosália! - Muito bem Rosália! Todavia fique com o meu contacto e se necessitar de alguma coisa basta ligar. - Obrigada… ...

Entre chegadas e partidas!

Sentiu as rodas poisaram no alcatrão para logo a seguir escutar e receber aquele ronco forte da travagem. - Atenção senhores passageiros, acabámos de aterrar no aeroporto Humberto Delgado em Lisboa. Agradecemos que se mantenham sentados e com os cintos apertados até que… A lengalenga foi também partilhada em inglês para logo se perceber uma normal agitação nos passageiros após mais de 12 horas de viagem. Quando o avião finalmente parou e deu aquele suspiro, o desengatilhar dos cintos foi quase unânime. Sem pressa e olhando a noite ainda fechada notou a miríade de luzes da cidade prestes a acordar para mais um dia. Decorreu algum tempo até que pode sair do seu lugar sem incomodar ninguém e retirar o trólei arrumado na gaveta por cima da sua cabeça. Encaminhou-se para a porta e recebeu o frio da madrugada de Lisboa enquanto se despedia da tripulação: - Obrigado e bom descanso. Bem precisam! - Obrigado nós! Volte sempre. Foi o último a entrar no autocarro que partiu devagar para a zona de...

O livro mágico!

Resposta a este desafio da Ana   Clarice sempre viveu num mundo imaginário onde reis e rainhas, príncipes e princesas, fadas e duendes conviviam numa alegre algazarra e também harmonia. Desde muito pequena que olhava para as lindas bonecas da irmã mais velha e tratava-as como figuras primordiais das suas aventuras.  Havia também gatos e outros animais ao redor da sua casa e que alimentavam o seu espírito infantil e a quem relatava as estórias que imaginava. Foi crescendo neste ambiente por si criado até ter consciência que à sua volta as árvores não cresciam de dentro dos livros, que os animais jamais falariam consigo, que as maravilhas que sonhava não passariam disso mesmo... sonhos bonitos, mas sonhos. Só! Certo dia cansada de tanto falar, pegou numa simples folha de papel e começou a rabiscar umas palavras. Às quais junto muitas outras. As histórias que inventara em criança surgiam agora repletas de aventuras maravilhosas. Escreveu, escreveu, escreveu até que certa tarde, à sombra ...