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A mostrar mensagens de dezembro, 2021

Resposta ao Pai-Natal

( Mais um para o rol da Isabel ) A algazarra do dia anterior de crianças e adultos transformara-se num silêncio cavo, apenas cortado pelo som da chuva que caía com força. Lúcia estava no seu quarto de volta dos presentes que recebera no dia anterior. A mãe estranhando a quietude ( quando estão calados estão a fazer o que não devem!!!) aproximou-se da filha e vendo-a tão entretida deixou-a ficar sem nada dizer. Só que Lúcia viu a mãe e correndo para ela abraçou-a pela cintura. Depois disse: - Obrigado mamã por teres escrito a carta ao Pai Natal. Ele trouxe tudo o que eu pedi… Riu-se a mãe. - Portaste bem durante este ano e o Pai Natal brindou-te com essas prendas. Só que Lúcia ficou a olhar para a mãe e devolveu: - Agora tenho de lhe escrever outra carta… - Outra? A pedir mais coisas? - Não mamã. Só quero agradecer as prendas… Atrapalhada a mãe acrescentou: - E quem irá escrever essa carta? - Tu mamã! A mãe voltou a sorrir. Depois foi buscar um bloco de papel e um lápis e sentou-se no c...

Tempestade

Há na chuva que ora me molha uma paz, uma serenidade, que não consigo entender! Nem quero.   O frio fresco e fortuito enterra-se na carne, na alma, no sangue. Mas faz-me sentir vivo! Basta assim.   Há um vento brando que agita, sacode, ralha. Como eu fosse culpado. Serei?   A natureza certamente conspira. Por mim ou contra mim?

O Natal de António

( resposta à Isabel )   António adorava o Natal. Acima de tudo pelas fragrâncias e aromas que na quadra vagueavam no ar pelas ruas frias e estreitas da aldeia. Era nesta altura que o seu espírito rebelde se apaziguava, pois vinha à lembrança bonitas memórias de uma mãe há muito falecida e que pelo Natal arrancava à labuta da casa umas horas para preparar uns doces. As filhós e as rabanadas eram sem dúvida os seus favoritos. Mas as velhozes e o arroz-doce também tinham a honra de pertencerem a uma consoada austera. Porém todas as essências não passavam de uma ténue referência a um tempo pobre, mas feliz em que o pai não se embebedava nem o sovava. Recordava-se dos irmãos que brigavam ruidosamente junto à cortelha dos porcos, obrigando a mãe a constantes ralhetes. Vinha-lhe à ideia um enorme cão, o Tejo, que ladrava constantemente e um burro que zurrava com fome. Lembrava-se da cama pobre e partilhada com dois irmãos mais velhos e das noites de temporal em que ninguém dormia porque a águ...

Contos para a minha neta ler!

A menina e o burro Naquela planície plana e a perder de vista nasceu certo dia um burrito. A sua mãe desde logo o protegeu, assim como os restantes animais do prado como os cavalos, éguas, vacas, bois, ovelhas e carneiros. O pequeno asno rapidamente foi adoptado por todos o que fez dele um animal muito feliz. Todavia à volta do prado havia uma cerca alta e robusta que limitava as fugas e ao mesmo tempo a entrada de outros animais. Certo dia o jovem jumento abeirou-se da cerca. Do outro lado uma menina olhava o prado com um olhar iluminado ao qual acrescentou um sorriso infantil. Assim que percebeu o burrito estendeu a mão para uma festa ao animal. De repente a mãe da menina surgiu a correr e tentou afastar a criança que começou a chorar. Porém no dia seguinte voltou a aparecer e todos os dias seguintes. Da menina e do burro nasceu assim uma forte amizade sem que ambos o percebessem. O animal sempre que via a cachopita a aproximar-se da cerca corria para ela e a menina passou a trazer m...

Mataram o Pai Natal - II

(... continuaçáo daqui  e em resposta a isto ) Acordou com o som de vozes. Abriu os olhos e deu logo de caras com o monitor do seu velho e obsoleto computador onde passavam umas bolas. Num gesto rápido ergueu o corpo da secretária com medo que alguém o visse naquele estado. Espreguiçou-se com prazer, bocejou, flectiu as pernas e por fim voltou a sentar-se. Enterrou a cabeça entre as mãos enquanto perguntava: - Mas o que me aconteceu ontem? Olhou para o lado e ainda lá estava o que deveria ter sido a sua consoada. - Nem jantei… As vozes aproximavam-se… Seriam os colegas que entravam de manhã. Buscou o telemóvel e ao ver 7 e 35 da manhã ainda mais se espantou. Procurou as chamadas e nenhuma para o chefe Baptista. - Ai… será que estou louco? Os colegas entraram de rompante e ao darem de caras com Olegário cumprimentaram: - Bom dia, Feliz Natal - Ah bom dia… - Ficaste aqui toda a noite? Seria prudente dizer a verdade. - Sim fiquei… tinha aí uns processos complicados… Depois não tenho ningu...

Mataram o Pai Natal! - 1

Em resposta a isto !   Olegário quase que dormitava em cima da secretária ao tentar ler alguns relatórios criminais todos para arquivo. Estava a meses da aposentação e solicitara por isso ao chefe Baptista que lhe dessem trabalhos de secretaria. Estava cansado de prender criminosos de toda a espécie, que rapidamente eram libertados e não pretendia ser mais um herói morto. Preferia antes ser um cobarde vivo. Naquela última Consoada que passaria de plantão esperava uma noite serena. Por isso trouxera um bom pedaço de leitão assado, uma botelha de vinho tinto oriunda da aldeia, muitas batatas fritas de pacote e um bolo-rei. Aguardava apenas que o pessoal saísse para ficar a sós com o seu repasto. Os colegas foram saindo desejando-lhe um bom Natal ao qual o transmontano respondia com um aceno de mão por entre relatórios. Quando olhou para o velho Cauny percebeu que eram horas de ir comer. Fechou o processo que tinha entre mãos quando um telefone tocou na sala. - Deixa-o tocar… Será que nã...

A herança!

Respeitando um pedido da Isabel   Com os dedos bateu duas vezes. Escutou vindo de dentro: - Entre! Maria Clara empurrou devagar a porta do quarto e estando este envolto numa penumbra aproximou-se da rapariga que estava deitada e abraçou-a: - Parabéns minha filha… Como estás? – e procurou logo o berço. - Estou bem mãe. Obrigado… - depois pegou no recém-nascido e entregou-o à novel avó. - Eis o seu neto primogénito. A avó deixou cair duas grossas lágrimas: - Tão lindo o teu menino… e a meia dúzia de dias do Natal até parece o Menino Jesus. A filha ria feliz enquanto a avó devolvia a criança à mãe ajeitando a roupa demasiado grande para o bebé. De súbito recuou como se tivesse visto algo terrível. A filha notou: - Que se passa mãe? Tentando recompor-se a avó desviou a face para dizer: - Não se passa nada, filha! - Mãe, não mintas… O que viste no bebé? - Já te disse… nada! A parturiente pegou na criança e tentou pesquisar o que poderia ter assustada a avó. Não observando nada estranho insi...

Carta a um qualquer Pai-Natal!

Em resposta à Isabel !   Olá Pai-Natal,   Eu sou a O. e pedi que me ajudassem a escrever, pela primeira vez, esta carta. Dizem que tentas satisfazer os desejos daqueles que acreditam em ti… Mas sabes eu não sei quem tu és… nunca te vi já que só tenho dois anos. Será que também tenho direito a prendas? Pai-Natal dizem que és velhote, que tens barba branca comprida tal e qual o meu avô e que andas de trenó puxado por duas renas. Mas ainda não sei o que é tudo isso… Talvez para o ano. Mas pronto vou dizer o que não quero para este Natal: - não quero brinquedos, tenho muitos; - não quero livros pois ainda não sei ler. Só quero: - que me deixes viver para sempre com a minha cadela; - que me deixes brincar com o pateta do meu avô; - que me deixes sempre rir; - que me tornes numa menina feliz. Não sei se é pedir muito ou pouco, mas é só isto que gostaria de ter neste Natal. Pode ser? Um dia quando for grande quero conhecer-te e falar contigo! Combinado? Faz boa viagem de onde vieres. O.