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A mostrar mensagens de outubro, 2021

"O Beijo" de Gustav Klimt

Resposta ao desafio da Fátima Cumprimentaram-se de forma fria e sentaram-se frente a frente. Àquela hora da manhã a Praça Navona, em Roma, era um lugar quase vazio. Um dos homens puxou de uma pasta e mostrou o interior repleto de notas de 500 euros ao oponente. - Tenho um negócio a propor... - Mas eu não entendo nada de negócios... sou em mero reformado! - Um estranho reformado que viajou para Itália em jacto privado. - Mossad, CIA, Interpol? - Nada disso. - e avançou - represento alguém abastado que requisita os seus especializados serviços. - Não imagino como o poderei ajudar? - O meu patrão quer que pinte uma réplica perfeita de um quadro famoso. Sei que o fez com um de Van Gogh e outro de Goya e muitos de menor importância. O falsificador levantou-se, pegou no chapéu de chuva e preparou-se para partir quando escuta: - A ideia não é só fazer uma cópia, mas substituir a falsificação pelo original! A ideia súbita de ter uma quadro pintado por si exposto, mesmo sendo uma cópia, fê-lo ...

"Sobreiro" de Malhoa

Resposta ao desafio da Fátima Entrou na loja devagar. Uma espécie de sino muito agudo tocou, para logo aparecer o dono do estabelecimento que ao ver o cliente logo saudou: - Ora viva, boa tarde como está? – e estendeu o punho para o cumprimento pandémico. O cliente respondeu também com o seu punho direito respondendo: - Vamos andando! - Que tal a estante, ficou bem? - Ah optimamente! - Já agora o tal quadro? - Esse é que ainda não está montado. Nem sei se alguma vez será… pendurado! A conversa parecia boa, mas o antiquário percebeu que aquele cliente tinha alguma coisa na ideia. Portanto valeria a pena investigar: - Então o que o trás por cá? Não me diga que é por causa da cómoda? - Ai não, não… desta vez ando em busca de uma moldura para um quadro que a minha mulher está a desenhar. - Temos cá muitas… algumas são bem antigas e verdadeiras pechinchas… - Ok então vamos lá vê-las… O lojista virou costas e o cliente segui-o. De súbito este pára e fica a mirar um relógio em cima de uma có...

"El sueño" de Frida Khalo

Resposta ao desafio da Fátima   Sonhei que tinha morrido. Agora que estou de novo acordada, queria demais que o sonho fosse realidade. Sonhei que tinha partido. Neste momento em que olho para esta cama que me detém, queria sublimemente que aquele fosse verdadeiro. Há quase trinta anos que descobri que tinha esclerose múltipla. Comecei por coxear, depois canadianas, mais tarde cadeira de rodas para agora aqui estar imóvel, a sonhar a todo o momento que a doce negra me leve e deixe, por fim, descansar quem cá fica. Sei, no entanto, que ela paira algures por aí. Pode dormir comigo aqui a meu lado ou no beliche de cima, todavia ainda não teve a ousadia de me levar. Preciso outrossim de paz, necessito que aqueles que me rodeiam repousem destes anos de amarguras. Porque eu…. eu já fui o que não sou agora. E sempre acreditei no milagre de uma suposta cura... Triste e pobre crença. Sonhei que corria. Para perceber que as minhas pernas hoje são mais empecilhos que alegrias. Que os meus braços ...

Poema de saudade

( Porque a Marta Elle nunca desapareceu!)   Não sei se me lembrei ou se nunca te esqueci! Sei apenas que não moras entre nós há muito.   Rimos muito, Escrevemos alguma coisa. Trocámos palavras, Porque te sabia presente.   Hoje és uma memória, Recordação que se evadiu Do meu coração Para me fazer lembrar de ti   Poema pobre, este, sem rima De quem se diz ser poeta. Pobre escriba que sou De coração cheio de saudades.   Tuas!

"40 anos" de Fátima Mano

- Mããããããiiiiiiiii ó mãããããããiiiii! Isabel apareceu em tom aflito no quarto do filho, tentando secar as mãos a um pano. - Que se passa Zé? Que gritaria é essa? - Desculpa mãe, mas estou aqui com um problema e não consigo antever uma boa solução. - Então qual é o problema? - A professora Fátima entregou-nos este quadro para escrevermos um texto sobre ele… O que nos vier à cabeça… A mãe olhou com interesse a pintura de Fátima Mano para finalmente dizer... - Não vejo onde estará o problema. Olha… descreves o que vês… - Achas isso fácil, mãe? - Então não é? – depois arriscou – e o que escreveram os teus colegas? O jovem fez um gesto de enfado perante a questão materna para finalmente responder: - Oh… cada um diz sua coisa. Por exemplo a Ana de Deu s  viu o quadro de uma forma, a Ana Mestre   de uma completamente diferente. O João-Afonso   e screveu uma coisa ainda mais estranha, a Olga   pior ainda… - Que mal é que isso tem? Cada um vê as coisas de uma maneira muito própria. Então a  Cél...

Caçador matreiro!

O fim de tarde trouxera a triste nova à aldeia: - Morreu o Zé Descalço. - Eia pah… que pena. - para logo seguir a pergunta fatal - que idade teria? - Para mais de oitenta anos. Foi conversa durante o resto da tarde e toda a noite. Os homens que entravam na taberna do Charrua, logo perguntavam: - Sabem quem é que morreu? Todos respondiam que sim e retornavam aos copos de vinho quase azedo ou de cerveja quase quente, aos jogos de sueca ou ao velho dominó. No meio da algazarra alguém comentou: - O Zé Quim era um tipo tramado… sabia-a toda… As cabeças já meio turvas concordavam, mas foi o Fidalgo que aceitando o repto lançado e naquele seu jeito de contador de trovas e mentiras acrescentou: - Dizem que até enganou um juiz. - Não acredito – devolveu um - Foi, foi verdade – confirmou outro. - Como assim? – ouviu-se alguém perguntar. Então o Fidalgo rapou de uma cadeira, rodou-a 180 graus e sentou-se de frente para as costas da dita. Tirou a boina suja e surrada, sacudiu-a como se fosse fazer...