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A mostrar mensagens de setembro, 2021

Uma metáfora para a vida - XXX

Resposta ao desafio da  Ana Sentado nas escadas graníticas e frias da casa, via os gémeos Manuel e António numa brincadeira com o Gerúndio, um cão rafeiro que aparecera perto de casa e que rapidamente fora adoptado. Dois degraus abaixo Ângela afagava a barriga volumosa de uma Rosa prestes a vir ao Mundo. - Amor? – chamou ela. - Diz querida. - Se um dia alguém escrevesse a nossa história qual achas que deveria ser o título? - Ui – respondeu Alcides, soprando – sei lá… - Vá faz um esforço… Tens tanta imaginação… Alcides sorriu, desceu os dois degraus que o separavam da esposa e puxando a cabeça deu um beijo nos cabelos. Por fim acrescentou: - “O Amor é lindo” seria um nome giro! - E que lição tirarias? Alcides desceu outro degrau e ficando de frente para a esposa, questionou: - O que é que se passa na tua cabeça? Que coisa essas tuas perguntas! Ela riu com gosto e finalmente sussurrou: - Desculpa querido, mas o autor disto é um coscuvilheiro… Uma gargalhada sonora ecoou na planície para ...

Um beijo de amor - XXIX

Resposta ao desafio da  Ana Saíram de mãos dadas do pequeno café. - Onde tens o teu carro? – perguntou Alcides. - No parque subterrâneo ali ao fundo… - Curiosamente onde está o meu. Seguiram então bem juntos como quisessem recuperar todo o tempo que haviam estado afastados. Desceram as escadas para o parque. - O meu carro está no menos um… - avançou Ângela. - Estou mais abaixo… Prefiro não assumir o risco de ter o carro amachucado… - disse em tom de brincadeira. Por fim pararam no primeiro patamar. Ângela olhou Alcides e nem sabia o que dizer e acima de tudo o que fazer. Então aproximou-se do namorado e encostou os seus lábios aos dele. Ele aceitou o ósculo. Foram segundos breves, mas que para ambos pareceram horas, dias, anos… uma eternidade. Depois… bom depois foi uma série de outros beijos quentes, húmidos, apaixonados. No entanto aquele primeiro beijo fora o lacre e o sinete com que selaram o futuro de ambos.

"O Grito" de Edvard Munch

Resposta ao desafio da Fátima Naquela manhã Rafael acordou completamente transfigurado já que havia qualquer coisa no seu espirito ou alma ou fosse onde fosse que o fazia sentir-se… vazio. Nunca se sentira daquela maneira. Por isso manteve-se na cama até mais tarde no intuito que aquele mau estar eventualmente passasse. Quando por fim se levantou sentiu o quarto a rodar à sua volta como se estivesse profundamente ébrio. Respirou fundo, tentou acalmar-se e pretendeu encetar os primeiros passos em direcção à casa de banho. Não foi capaz. Sentou-se na beira da cama e enfiou a cabeça entre as mãos e sem que desse por isso as lágrimas começaram a cair em profusão. Desconhecia porquê... Não tinha nenhuma dor, unicamente aquele aperto no peito que quase o não deixava respirar. Voltou a tentar encher os pulmões, mas estes recusavam-se. Estava sozinho em casa. A mulher saíra para fazer umas compras e inexplicavelmente teve medo, muito medo. Com um esforço quase titânico arrastou-se para a sala...

Uma esquina marcante - XXVIII

Resposta ao desafio da  Ana Naquela esquina havia um pequeno café, simpático e acolhedor. Ambos conheciam o lugar e haviam combinado encontrar-se lá antes de mais um dia de trabalho. Vindos de lugares opostos ainda assim quase que chegavam juntos. Entraram e sentaram-se a uma mesa tendo a rua movimentada como fundo. Alcides foi o primeiro a iniciar a troca de galhardetes: - Ontem deixaste-me pendurado… - Pendurado? - Sim… pendurado. Isso não se faz… Deveria ser crime – disse o engenheiro a rir. Ângela entrou na brincadeira: - Tu é que iniciaste as hostilidades. Se achas que há algo estranho entre nós tenta perceber o que é… Alcides sabia e por isso olhou o movimento da rua tentando encontrar neste a coragem. Em silêncio pegou na mão da namorada e sentindo o coração aos pulos gaguejou: - Eu… eu… nem sei como dizê-lo… Ângela apertou as mãos dele e olhando-o nos olhos acrescentou: - Diz o que te vai na alma. Nada temas… nem te envergonhes do que irás dizer pois será o teu coração a falar....

Um equívoco concertado - XXVII

Resposta ao desafio da  Ana Não obstante saírem, rirem e quase chorarem juntos pairava sobre ambos uma nuvem negra. Sentiam intimamente a sensação de que algo entre ambos não estava resolvido. Fosse um equívoco, uma dúvida, uma palavra… não o sabiam. Certo, certo é que qualquer coisa os separava de uma relação mais próxima. Alcides muitas vezes na solidão do seu gabinete pensava no que poderia ter havido entre ambos para que não avançassem para uma relação (ainda) mais próxima. Recuara uma quinzena de anos e procurava nas suas memórias um momento menos feliz, uma palavra errada, um gesto estranho… Mas nada, rigorosamente nada. Seria de ter ocupado o lugar na empresa que fora de Ângela? O vírus da dúvida corroía-lhe o coração e assim pegou no telemóvel e ligou a Ângela: - Olá flor! - Oi jovem! Então? – e deixou que Alcides acabasse pergunta. - Tenho saudades tuas, sabes? Um silêncio. Ele retornou: - Há algo em nós que não está bem. Nem sei porquê, mas sinto sempre uma nuvem negra por ci...

Uma obra de arte – XXVI

Resposta ao desafio da  Ana Noutro fim de semana voltaram a encontrar-se para uma visita a umas galerias de arte. Ângela fora convidada para ser presidente de uma empresa de renome e daí ter orçamento para decorar o seu gabinete. Sempre adorara pintura e por isso as galerias eram locais óptimos para se gastar algum dinheiro em arte. Percorreram uma série de estúdios com muitas quadros, porém nenhum deles a cativou pela excelência. De vez em quando dizia a Alcides em tom muito baixo enquanto alguém tentava explicar o contexto da pintura: - Demasiado vulgar… Depois partiam para outra. Já estavam prestes a desistir quando Alcides se lembrou de uma galeria de um amigo que trocara a faculdade pelo negócio de pintura. Foi uma festa o reencontro dos antigos colegas. Finalmente: - Diz lá então ao que vens? - Aqui a minha amiga pretende um quadro… como hei-de dizer… diferente. - Venham aqui dentro… Foi por fim nessa sala que Ângela descobriu a sua genuína obra de arte!

Um adormecer tranquilo – XXV

Resposta ao desafio da  Ana O passeio daquele Sábado fora muito longo. Após a visita à Fonte das Ratas em Alfama, ali bem perto do Terreiro do Trigo, subiram a Rua do Paraíso para embocarem no Largo de Santa Clara onde decorria a Feira da Ladra. Continuaram a subir até à Graça, seguiram para Sapadores para depois descerem até à Almirante Reis. Nesta artéria subiram até à Alameda e daqui para a Manuel da Maia para depois apanharem a avenida António José de Almeida e logo à frente a Miguel Bombarda para culminarem no Jardim Gulbenkian. Uma longa caminhada onde muito se falou. Alcides estava encantado e entre muita coisa que confessou a Ângela assumiu que gostara apenas de uma pessoa na vida. Mas escusou-se a dizer o nome… Almoçaram numa esplanada de um simpático café para depois continuarem a caminhar acompanhados de um ror de estórias. Voltaram ao ponto de partida ao fim da tarde regressando cada um a casa. Alcides deitou-se extremamente cansado, mas feliz. Ângela quando descalçou os sa...

Uma caminhada curiosa - XXIV

Resposta ao desafio da  Ana Após um Domingo de passeio, de muita conversa e gratas recordações foi a vez de Ângela convidar Alcides para novo encontro. Ambos apreciavam caminhadas. Ela preferia a paisagem marítima, ele campestre. Então decidiram caminhar na cidade. Dois dias antes: - Por onde começaremos? – perguntou ela quando lhe ligou. - Oh não sei… talvez conheças melhor a cidade que eu… Portanto diz tu… - Está bem… vou preparar um roteiro e depois falamos. Ângela pegou num mapa da cidade de Ulisses escolheu um roteiro que seria no mínimo curioso. O sábado seguinte acordou frio não obstante um sol meio arrepiado. Quando bem cedo se  encontraram no Terreiro do Paço, Ângela foi logo avisando: - Estás preparado para andar? - Claro… - Então prepara-te que vamos ter uma caminhada, no mínimo, curiosa. - Ui nem sequer imagino - assumiu Alcides a rir. - Vamos começar pela velha Fonte das Ratas. Sabes onde é?

Um prazer inenarrável – XXIII

Resposta ao desafio da  Ana Caía sobre a cidade o escuro manto da noite. Iniciara, entretanto, a soprar uma brisa fria e desconfortável. Alcides pegou no seu casaco e colocou-o sobre os ombros de Ângela que educadamente recusou: - Obrigado Alcides, mas não necessito de casaco. Geralmente não sou friorenta. - Isso é raro nas mulheres. - Pois é… - concordou ela. Levantaram-se do banco do velho jardim e principiaram a andar lado a lado. Caminhavam devagar. As luzes da cidade surgiam agora à sua passagem como se quisessem iluminar o caminho de ambos. Foi ela que reparou: - Que coisa estranha… - Que foi? - Perguntou  ele. - Conforme vamos andando as luzes vão-se acendendo. - Olha pois é… que coisa tão engraçada – concordou Alcides para logo acrescentar: - Queres ir jantar? Ao que Ângela respondeu: - Talvez mas mais daqui a pouco… porque é um prazer inenarrável ver este fenómeno!

Uma discussão idiota – XXII

Resposta ao desafio da  Ana O encontro entre ambos foi algo quase bizarro. Para ambos! Tantos anos em busca da outra metade e de um momento para o outro a vida, a divida providência ou o mero acaso colocara-os no mesmo trilho. Ângela chegou cedo ao jardim onde haviam combinado se encontrar. Sentou-se num banco e pegou no livro que trazia e reiniciou a leitura. Uma leve brisa soprava no cimo dos choupos e dos amieiros. A tarde principiava a cair quendo no instante seguinte alguém se sentou a seu lado com um ramo de flores. Assustada pelo repentismo de Alcides, deu um safanão no jovem engenheiro dizendo: - Parvo… assustaste-me. Isso não é ser cavalheiro… - Desculpe minha senhora, mas pensei que fosse mais rija de emoções – devolveu Alcides a sorrir. - Parvo, idiota… - A senhora está-me a ofender! E mais, esta parece-me uma discussão deveras idiota. Ainda por cima logo no dealbar do nosso primeiro encontro - continuou o outro a rir com gosto. Ângela acabou por sorrir e aceitou o belo ramo...

Starry Night de Vincent van Gogh

Resposta ao desafio da Fátima   Olhou o original e considerou que era um belíssimo quadro, mas estranho, difícil, quiçá um tanto duro. No entanto a sua aposta seria igualá-lo, custasse o que custasse. Sabia de antemão que seriam necessários muitos dias e provavelmente imensas noites sem dormir para o terminar. Alguém muito próximo e a quem contara a sua nova aventura, avisou-o: - Isso é uma enormíssima loucura. Jamais o conseguirás acabar! Porém Manuel era um homem abnegado, corajoso e tenaz. E tinha um lema na sua vida: o difícil está feito, o muito difícil é para logo, o impossível demora mais umas horas! Na verdade, o tempo era algo que tinha de sobra e assim, abordando radicais desafios, fazia com que aquele fugisse num ápice. Foram dias, noites, semanas numa luta constante. Fazia-o muito devagar como quisesse saborear cada momento, cada segundo. Depois os cuidados que tinha... Enquanto ia desfiando lentamente o desenho, tentou ao mesmo tempo perceber que emoções terá o pintor hol...

Um sopro de esperança – XXI

Resposta ao desafio da  Ana A visita ao lar onde estava a D. Amélia foi estranhamente rápida. A senhora idosa perdera toda a noção do local e das pessoas e até mesmo de coisas táo simples como uma colher. Não conheceu o filho e preferiu ver uns livros de crianças aos afectos do filho. Assim Alcides saiu triste do lar e pensou em ligar a Ângela. Mas seria que ela agora o receberia? Na verdade o engenheiro temia um encontro com a gestora. As memórias de uma juventude nem sempre são de fiar e a realidade actual poder-se-á ter alterado com o decorrer dos anos. Mas era tudo uma grande incógnita. Decidido ligou para Ângela. Esperou pouco: - Boa tarde Alcides! Então como está a tua mãe? - Desculpa ligar-te agora mas a visita ao lar foi rápida já que a minha mãe está cada vez pior da senilidade. Nem me conhece… - Lamento muito! - Que me dizes a encontrarmo-nos ainda hoje? Acho que estou em falta para contigo! Um silêncio sobreveio para finalmente sentir uma espécie de sopro no telefone. Pareci...

Uma fruta mordida – XX

Resposta ao desafio da  Ana Ângela começou a desconfiar de que Alcides a evitava a todo o custo. Fosse por ter estado ligado à empresa onde agora trabalhava ou fosse por serem velhos conhecidos a verdade é que a gestora sentia que o seu coração necessitava de ver aquele homem de quem nunca se esquecera. Retirou ao presente 15 anos para se colocar naquela aldeia onde conhecera um jovem tímido, com um sorriso enigmático, mas muito inteligente. Porém na altura não o sabia já que tudo era alegria, festas e animação e  resto passava quase ao largo, a não ser umas trocas de ideias sobre livros lidos. Esboçou um sorriso quando se lembrou daquela tarde em que ambos haviam desaparecido da companhia dos demais para apanharem umas peras esplêndidas, como diria Alcides. Porém a maioria dos frutos estava muito alta. Daí o jovem ágil e habituado àqueles desafios subiu ao cimo da pereira e apanhou apenas duas ou três peras que trouxe com cuidado para baixo. Pegou numa passou-a pela manga do casaco de...

Uma tarde de Domingo – XIX

Resposta ao desafio da  Ana   O primeiro fim de semana após ter assumido a chefia de um Departamento de investigação deveria ser de repouso. Porém Alcides tinha outros planos em mente e a maioria estava ligado à gestão de recursos humanos. Até à entrada na empresa o jovem professor de uma Faculdade apenas se preocupava em dar as aulas de forma assertiva e competente e pouco se preocupava com a gestão humana. Parecia um sector com o qual tinha poucas ou nenhumas preocupações. Porém de um momento para o outro tudo mudara ainda por cimo após aquele conselho de Ângela- A sua agulhe virou de repente e ficou a +ensara que estaria ela naquele momento a fazer? Pensou ligar-lhe mas isso poderia ainda mais estragar a sua relação já que após a entrevista jamais a vira. O seu aparelho tremeu. Pegou nele e não conhecia o número. Atendeu: - Estou quem fala? Um breve silêncio e depois aquela voz: - Olá… sou eu! Desculpa… deves tar mais que fazer… - Não Ângela, não… Sinceramente estava a pensar em ti,...

Uma pergunta intrigante – XVIII

Resposta ao desafio da  Ana Caía a noite sobre a cidade. Ângela passara a tarde a ler estendida no sofá envolta numa manta quente. A chávena de chá fumegante estava já vazia após uma infusão de erva-príncipe. Lá fora uma água miúda batia na vidraça ajudada por vento algumas vezes forte. Passara a manhã a responder a algumas entrevistas de emprego, mas ao invés de um normal desempregado era a ela que ligavam para recusar o emprego. Havia propostas para ser um pouco de tudo: Chefe de Recursos Humanos numa empresa de trabalho temporário, Administradora de consultora na área do retalho, directora de departamento de Auditoria de um banco. Era óbvio que a sua fama de gestora de sucesso a precedera e daí os convites que caiam uns atrás dos outros.  No entanto a sua cabeça saltitava entre o livro que tinha à sua frente e… Alcides naquele seu primeiro dia na empresa que ela dirigira nos últimos três anos com um sucesso evidente. O curioso é que ainda não se tinham encontrado a sós desde aquela ...

Um gesto inspirador – XVII

Resposta ao desafio da  Ana Custou a Alcides abandonar os seus alunos, mas tendo em conta a proposta irrecusável, seria louco não aceitar o emprego de responsável pelo departamento de investigação com meios, tanto humanos com técnicos, ao seu inteiro dispor. Quando entrou pela primeira vez na empresa, Ângela já se demitira tal como prometera, de forma a que não houvesse qualquer choque de interesses. Porém antes, naquela manhã, Alcides retirou do seu roupeiro aquele fato, vestiu a camisa de punhos branca, colocou uma gravata e finalmente enfiou os botões de punho na camisa. Olhou-se ao espelho, respirou fundo, pegou na carteira e no telemóvel e partiu para o novo desafio. Após as milhentas apresentações Alcides foi finalmente introduzido num amplo gabinete com vista para o Tejo. - Será este o seu gabinete daqui por diante! – disse o administrador-delegado e responsável pelos Recursos Humanos. - Obrigado… mas… não seria melhor ficar mais perto do laboratório? - Claro e terá lá uma peque...

Um desafio empolgante – XVI

Resposta ao desafio da  Ana Com a contratação de Alcides, a jovem administradora cumpriu o que havia dito e demitiu-se da empresa. Mesmo oferecendo-lhe um lugar como consultora preferiu sair para não causar mal-estar. Para já iria tirar uns dias de férias ainda que o tempo não fosse convidativo. Longe da cidade, do movimento louco, das permanentes correrias. Naquela manhã levantou-se tarde de tal forma que a empregada quando entrou em casa assustou-se com a presença da patroa: - Ai doutora… que não a sabia cá… Que susto! Desculpe… bom dia! - Bom dia! Não te preocupes comigo. Vou arranjar-me e depois irei sair. Não sei quando chegarei. - A doutora trabalha demais… e é uma jovem… tão bonita e solteira… A patroa sorriu. Aproximou-se da empregada e confessou em tom baixo: - Sabes que a vida prega-nos muitas partidas… - Oh se prega doutora… - concordou a outra acenando com a cabeça. - O que te vou dizer não é para contar a ninguém. - Fique descansada… a minha boca é um túmulo – e cruzou os ...

Um medo forte – XV

Resposta ao desafio da  Ana Aprendera desde novo a viver com as adversidades que a vida lhe propunha. Como também percebera que teria de lutar mais que os outros para chegar mais acima. Quando chegou ao seu pequeno apartamento numa zona suburbana ficou a pensar na precipitação de acontecimentos desse dia. Uma amálgama de sensações, emoções, memórias e no fim um receio terrível! Sabia que o seu coração, havia muito, que tinha dona. Mas assumi-lo não era coisa que ele dissesse a alguém. Depois esperava encontrar alguém que a fizesse olvidar. Bem que tentou, mas nenhuma delas era… Ângela. Para naquele dia a ver ali bem perto de si, com aquela beleza que sempre a caracterizara. - Caneco o mundo é tão pequeno… - disse para consigo já sentado no seu sofá. O problema maior surgia agora, pois teria de escolher entre ser professor numa faculdade ou quase investigador sénior numa empresa de renome… com as naturais boas alternativas financeiras. A responsabilidade seria muito grande e daí sentir ...

“A ONDA” de Katsushika Hokusai

Resposta ao desafio da Fátima Havia tempos que andava com anseio de ir a um antiquário. Acima de tudo porque necessitava de comprar uma estante e as modernas durariam menos que nada. Entrou na loja repleta de tanta coisa velha e antiga. Pairava no ar um aroma onde se misturava a cera, cânfora e bafio.  Por detrás de uma velha secretária ergueu-se o vendedor que, não obstante as evidentes cãs, parecia mais novo do que aparentava. - Boa tarde… - Boa tarde – respondeu o cliente – posso dar uma volta? Conhecia bem a forma de comprar algo mais barato neste tipo de lojas. - Com certeza… Esteja à-vontade… Procura alguma coisa especial? - Não, nem por isso – mentiu – mas gosto de ver este tipo de lojas. - Então... sinta-se em casa. Foi tricotando por entre muitos móveis loiças, faianças, relógios ou rádios velhos. O dono seguia-o à distância não fosse alguém mais… estranho e quiçá amigo do alheio. A determinada altura o eventual cliente perguntou: - Diga-me este lustre é de vidro banal ou cri...

Uma previsão do futuro – XIV

Resposta ao desafio da  Ana Após a reunião assaz estranha e inimaginável onde gratas recordações vieram a lume no seu espírito, Ângela regressou ao seu gabinete e aguardou por alguns dos seus colegas da equipa de gestão. Um a um foram chegando e sentaram-se à frente da secretária da responsável máxima aguardando o que Ângela teria a dizer. Após um breve silêncio a Administradora iniciou a reunião: - Bem… como calculam a reunião com o… Al… o engenheiro Alcides Correia foi, no mínimo, estranha. Jamais pensei ver este senhor com quem convivi há muitos anos. Na altura perdi-lhe o rasto… Levantou-se do seu lugar, virou-se para a paisagem urbana e continuou: - Não sei o que decidirá o engenheiro, mas uma coisa assumo já aqui e agora… se ele vier para a empresa eu peço imediatamente a demissão. Não quero que haja choques de interesses. Um burburinho fez-se ouvir e um dos colegas acabou por perguntar: - Ângela… e qual será o nosso futuro sem a sua presença? Ela esboçou um sorriso, rodou 180 gr...

Um animal de estimação – XIII

Resposta ao desafio da  Ana A porta da sala de reunião abriu-se para dar passagem à responsável máxima. Ao redor da mesa estavam já três administradores, a directora dos Recursos Humanos e Alcides como engenheiro a quem haviam lançado um desafio. Entrou e todos se levantaram. - Bom dia, desculpem-me o atraso. Quando Alcides olhou de frente para a Administradora o seu coração quase explodiu. Se fosse um animal de estimação iria a correr para a dona de língua de fora e com o rabo a dar a dar. Assim manteve-se em silêncio de pé a aguardar que ela olhasse bem para ele. Ângela deu a volta à mesa de reuniões e quando deu de caras com Alcides é que percebeu. Nem Alcides nem ela sabiam o que dizer… Um silêncio entre ambos que não passou despercebido aos restantes, tornou-se quase pesado. Coube ao engenheiro quebrar o gelo de uma forma invulgar. Aproximou-se da jovem e dados dois beijos acrescentou com um sorriso: - Há muitos anos que não te via Ângela. A responsável desarmada por aquele gesto ...

Uma vista da janela - XII

Resposta ao desafio da  Ana Bateram-lhe à porta. - Entre! - Doutora está já na sala de visitas o senhor engenheiro Alcides Correia para a reunião. Já chamei os restantes elementos da Administração. - Ó Elsa como se chama o tal engenheiro? - Alcides Correia… Um longo silêncio. Por fim: - Obrigada. Já lá vou ter… A secretária saiu e Ângela levantou-se da sua cadeira rodou 180 graus e aproximou-se da janela. O farol do Bugio surgia ao longe. O mar parecia um espelho cinzento onde o sol se vinha mirar e brilhar. Mas até ao mar havia uma distância onde uma urbe se erguia a caminho do céu. Da janela do seu gabinete tinha a visão fantástica do fim do estuário do Tejo e o início do Atlântico. Um principio e um final sem linha nem fronteira física. Perguntou a si mesma: - E se…?

Uma nuvem no céu - XI

Resposta ao desafio da  Ana O telefone tocou. Alcides ergueu o auscultador daquele negro aparelho de baquelite e atendeu: - Senhor engenheiro tem aqui uma chamada de fora, quer atender? – informou a telefonista. - Disseram quem são? - Sim senhor engenheiro, mas sinceramente não consegui perceber de onde era… - Passe então a chamada. Após uns breves instantes escutou então: - Engenheiro Alcides Coreia? - O próprio… Quem fala? - Chamo-me João Sacramente e Sá, trabalho numa multinacional e procuramos alguém para montar uns sistemas nas nossas fábricas. Alguém me falou de si como alguém especializado na área. - Mas o que pretendem realmente? Um rol de funções, actividades e outras funções foi sendo desbravado pelo interlocutor. Enquanto falava, o professor da faculdade ia olhando em seu redor. O gabinete estava forrado de prateleiras onde milhares de livros repousavam. Aqui e ali uns espaços das paredes era ocupado por gravuras velhas em molduras de estilo império. Atrás de si havia uma il...

Uma descoberta infantil - X

Resposta ao desafio da  Ana Sempre muito atarefada na sua vida profissional, Ângela mal tinha tempo para fazer o que mais gostava… montar puzzles. Tinha tantos, tantos que acabara por comprar um armário só para os arrumar. Alguns demoravam semanas a montar, quando não meses. Na verdade o gosto por este seu passatempo iniciara-se havia muitos anos. Um tio austriaco trouxera-lhe um exemplar de Salzburgo com uma pauta de um tema composto por Mozart e ela encantada fora tentar montá-lo. Não sabia como fazer até que o pai, entretanto falecido, naquela sua calma quase nórdica lhe ensinou a técnica. Num ápice a menina montou o puzzle que ainda guardava... religiosamente. Uma descoberta infantil que se tornou uma forma de exercitar a sua mente. E sempre que as coisas não lhe corriam bem ou se sentia triste puxava de uma caixa de cartão onde milhares de peças repousavam e voltava a montar. Nos dias seguintes a ter deixado Alcides na aldeia longínqua, Ângela montou todos os quebra-cabeças que ti...

Uma experiência triste - IX

Resposta ao desafio da  Ana Sempre que regressava à aldeia, e fazia-o amiúde, vinha-lhe à lembrança aquela tarde de um Veráo demasiado quente, havia mais ou menos 15 anos. Nesse fim de dia, Alcides teve a sua mais triste experiência e que o marcaria para o futuro. Ainda agora gostava de se sentar naquela pedra granítica colocada em cima de uma parede que ladeava a estrada. Quem por ele passava fosse a pé ou de carro perguntava-lhe sempre: - A ver quem chega e quem parte, não? O jovem professor universitário ria, acenava com a mão como se agradecesse, mas nem se dignava responder. Ninguém tinha a necessidade de saber o que ele fazia ali. E mesmo que desconfiassem provavelmente não teriam coragem de dizer ao “senhor professor”. Porém Alcides fazia-o sempre com a vã e cega esperança de um dia ver chegar o amor da sua vida: Ângela!

Um rito de passagem – VIII

Resposta ao desafio da  Ana Ângela chegou muito tarde a casa após uma viagem alucinante, que passou por um pneu furado, um radiador roto, muita fome e também muito, muito receio. De tal forma tivera tanto medo nessa viagem, que ocorrera havia perto de 15 anos, que a jovem guardou um momento final que consideraria agora quase solene, não fosse ser uma coisa tão vulgar, tão simples. E a verdade é que desde esse dia, Ângela, manteve o rito consigo e dissessem o que dissessem ela fazia questão de o preservar na sua vida. Também naquela noite quando regressou após muitas horas a conduzir e onde voltou a recordar outros lugares, fez questão de manter o rito. Assim, logo que chegou ao seu apartamento fê-lo. Um gesto tão simples e de passagem que quase parecia corriqueiro e sem importância, mas para ela era o seu momento especial do dia!

Uma música favorita – VII

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Resposta ao desafio da  Ana O som da música no bar quase que o ensurdecia tal era o volume. Ainda por cima temas bizarros muito repetitivos e sem graça. Achou estranho que, num bar com gente com uma média de idade mais elevada, escolhessem aquele género de música. Disse-o à sua companhia feminina, uma colega da faculdade onde lecionava. Esta encostou-se mais a Alcides e pediu: - Não consegui ouvir o que disseste… - Esta música, safa… é chata. Será que não têm nada melhor para pôr? - Sei lá… devem ter calculo eu! - Vamos embora que estou farto disto? - Já? Ainda é cedo… e amanhã é sábado, não tens aulas para dar! - Mas esta música… Ergueu-se da mesa após ter pedido a conta e saiu. A colega seguiu-o e já na rua perguntou-lhe: - Agora que estamos aqui fora diz-me que música gostaria de escutar lá dentro? - Esta... E activou o Youtube.  

Um sonho recorrente – VI

Resposta ao desafio da  Ana Deitada no luxuoso quarto de hotel que lhe haviam reservado, Ângela lia um livro após um dia fatigante. Quando sentiu que os olhos começaram a fechar, resultado do sono, ergueu-se da cama e nua como sempre dormia aproximou-se da janela sem pudor. A luz baça da Lua contrastava com a luminosidade da cidade que se abria à sua frente. Gostou do que viu e tentou destrancar a janela de vidro. Após algumas tentativas lá conseguiu perceber o mecanismo e escancarou a vidraça. Aproximou-se da beira para reparar que o hotel era à beira-rio. Um rio manso quase silencioso e que deixava que as luzes da avenida contrária se espalhassem na água, que corria calma. Abandonou a janela para ir ao minibar e retirar uma garrafa de água fresca. Abriu-a e bebeu um pouco. Regressou à janela. Tinha medo de adormecer… Era sempre assim antes de se deitar. Acima de tudo porque sabia que aquele sonho poderia vir a atormentá-la mais uma vez. Era um pesadelo recorrente muitas vezes indefin...

Um objecto quotidiano – V

Resposta ao desafio da  Ana Sentado à secretária no enorme anfiteatro, Alcides aguardava a vinda dos alunos. Um a um foram chegando pela porta de lado e foi cumprimentado: - Bom dia! Cumprimento que todos respondiam de igual forma. Olhou o relógio e percebeu que faltavam ainda dois minutos para a hora do início da aula. Foi folheando uns compêndios que estavam espalhados na secretária, abria uma página depois tirava anotações para, de súbito, se levantar aproximando-se do estrado de madeira para principiar a aula. Porém faltavam 30 segundos, quiçá o suficiente para chegaram mais discentes. Olhou o relógio e deixou que este fizesse correr lentamente o tempo. Assim que chegou à hora certa retirou-o do pulso, agitou-o nas mãos e depois principiou: - Bom dia mais uma vez. - Bom dia senhor engenheiro – responderam em uníssono os alunos espalhados pela plateia. - O que tenho aqui na minha mão é um aparelho que mede o tempo. Chama-se relógio, mas vocês já sabem. O que talvez não saibam é que ...

Uma pessoa amada – IV

Resposta ao desafio da  Ana Passou a saída da autoestrada da povoação que em tempos conhecera, mas esta não saiu dela. De tal forma que passou a andar mais devagar para ter tempo de se recordar daquele fim de Verão antes de chegar ao seu destino. Era uma miúda, pensou. Mas fosse miúda ou não, ainda agora sentia os lábios frescos de Alcides que, naquela manhã, lhe souberam àquelas peras doces que apanhara ou a mel com o qual barrara a torrada de pão de trigo. Por fim as palavras ditas por ele assim de chofre, vindas do fundo de um coração puro. Tanto tempo decorrera desde esse triste dia para si e para ele. Conhecera na sua vida muitos homens, alguns falavam-lhe de amor, mas pareciam palavras de plástico, sem gosto nem sabor. Na realidade Ângela passou a ter como matriz o que escutara na sua juventude. Não eram as palavras em si, mas unicamente a forma como haviam sido proferidas. Roçava os 30 anos de idade e definitivamente nunca amara ninguém. Nunca? Perguntou a si mesma… O jovem que ...

Um momento de coragem – III

Resposta ao desafio da  Ana Alcides nascera numa aldeia fria e áspera de palavras e desejos e onde o Mundo não existia para lá da charneca, do ribeiro ou das serras que rodeavam o povo. No entanto desde cedo embrenhou-se na casa da dona Úrsula, uma viúva de um antigo professor primário, e ali foi aprendendo não só a ler e a escrever como a pensar. Já um jovem com vontade própria viu certa tarde, no largo da Matriz aparecer Ângela acompanhada do primo Justino. Nesse segundo o coração prendeu-se naquela forma tão esbelta, tão luminosa. Umas trocas de palavras e logo ali soube que aquela seria a mulher da sua vida. Mas a realidade da vida tinha outros intuitos e depressa o jovem aldeão entendeu que aquele sentimento não passaria de um sonho irrealizável. Ainda assim acompanhou a menina que roubara o seu coração por todo o lado e sempre que podia. Por vezes ambos escapavam dos outros jovens em busca de outras aventuras. Falavam então de livros e romances, discutiam frases e ideias. Um dia ...

Um lugar querido - II

Resposta ao desafio da  Ana Devorava quilómetros a boa velocidade. Partira de madrugada para uma longínqua capital de distrito onde iria apresentar o seu projecto. No leitor de cd’s tocava Brel naquele seu jeito tão desconcertante de cantar. Ângela ia trauteando as músicas que conhecia. De tempos a tempos visualizada a saída para uma cidade ou terreola. Algumas já conhecia… outras só de nome. No quilómetro seguinte percebeu uma saída adiante para um lugar fantástico que outrora conhecera…  tão bem! Sorriu e tentou lembrar-se de quanto tempo havia passado desde aquele beijo dado de fugida, mas que jamais olvidara. Depois… que seria feito de Alcides?

Uma memória feliz - I

Resposta ao desafio da Ana As nuvens alvas pareciam colchões de algodão macio que coladas ao anil do firmamento retiravam alguma luminosidade ao dia. A passarada saltitava livremente de ramo em ramo, as folhas do sobreiro agitam-se com a brandura de uma brisa de fim de tarde. O sol surgia de quando em vez por detrás dos castelos brancos e nesse momento a terra ficava ainda mais seca. No instante seguinte, nem percebeu porquê, veio-lhe à lembrança o dia em que naquele lugar beijou Ângela. Um ósculo ingénuo quase fortuito, porém irrepetível. Ângela… a sua memória mais feliz de uma vida. Que seria feito dela?