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A mostrar mensagens de setembro, 2020

O Pastor #13

Aquela última viagem trouxera um pastor muito diferente. A primeira pessoa a notar foi a mãe que percebeu uma tristeza cava no olhar do filho. Se bem que o jovem nunca fosse um tagarela, a realidade é que nos últimos dias prevalecia o silêncio. Não imaginava o que se passaria no coração do seu rebento mais velho, mas ainda assim precisava saber. Pegando em toda a sua coragem de mãe aproximou-se uma noite do filho que olhava pela janela de vidros sujos, a chuva que caía com intensidade. Passou a mão pelos cabelos desalinhados e dando-lhe um beijo na testa acabou por anunciar: - Sei que não me irás dizer nada do que se passa dentro de ti, mas coração de mãe vai muito além do que possas imaginar. Por isso a única coisa que te vou perguntar é: o que posso fazer por ti? O rapaz rodou a cabeça olhou a mãe nos olhos e aceitando a ajuda devolveu: - Sabes quem poderá ter um livro? - Um livro? Para quê? - Para ler… A mãe desconhecia o gosto do pastor pela leitura. Todavia lembrou-se: - O senhor ...

O Pastor #12

Passaram-se Invernos e Verões sem que ninguém percebesse. O jovem pastor continuava o seu vai-vém com o seu rebanho. O pai moderara-se e havia algum tempo que mantinha o emprego. A vida parecia correr bem… Somente as estórias no largo haviam desaparecido totalmente, para enorme tristeza de alguns que sempre que apanhavam o pastor faziam sentir isso. Mas ele não se atemorizava e respondia a preceito. Entretanto o canito Sapatos também envelhecera e já raramente seguia com o dono. Por isso surgiu o Poeta devido à forma como conseguia mais aquele osso com carne. Com  a frase: este cão parece um poeta a mendigar carne , é que nasceu o seu nome. Não obstante estar ainda a aprender o serviço, já se desenrascava a preceito e conseguia com qualidade colocar o gado no caminho certo. Perdia-se por vezes atrás de algum coelho o que irritava o pastor: - Poeta por onde andaste? Que coisa essa de andares sempre atrás dos bichos… Havia muito tempo que a menina da Quinta das Figueiras não aparecia ao ...

O Pastor #11

Quando chegou ao curral percebeu que o gado já estava quase todo na rua. Primeiro assustou-se, porque prendera bem a cancela na noite anterior, para logo descobrir o pai que ajudava a retirar o resto do rebanho. - Bom dia, que faz aqui? - perguntou com inequívoco mau modo. O pai não enunciou qualquer azedume e num tom que impunha alguma autoridade respondeu: - Vou levar as ovelhas que escolheste à quinta. Foi meu o erro... sou eu que irei dar a cara. O Pastor correu a cancela e mais não disse colocando-se a caminho pela estrada de terra batida. Corria um vento frio vindo da serra. Mas o jovem nada sentia... apenas uma raiva que não traduzia em palavras, apenas em passos lestos. Por detrás da colina surgia a madrugada. O céu estava salpicado de umas nuvens que foram desaparecendo conforme o dia clareou. Caminharam, pai e filho, calados durante todo o tempo. Entretanto Sapatos fazia com competência a sua função e o gado que o conhecia bem raramente lhe desobedecia. Devoraram quilómetros ...

Dor!

Há quem ame por amor, Há quem ame por despeito Há quem sinta temor Da dor que sente no peito   Há quem odeie por tristeza Há quem odeie por raiva Há quem tenha a certeza De que odiar é a sua seiva   Há quem chore por sentir Que amar é só dor Que odiar é só vestir A alma de traidor.

O Pastor #10

(... Continuação daqui ) Sentadas na enorme sala, ricamente decorada, mãe e filha olhavam em redor como se ambas quisessem fugir a uma conversa, que nenhuma delas ousava ter. Uma porque sabia que perdera a razão. A outra porque percebia que a filha não era já uma criança. E provavelmente o coração prendera-se algures… Coube à progenitora abrir então a demanda: - Não tens nada para me dizer? - O quê, mamã? A filha respondeu num tom seco como estivesse muito segura de si. Todavia a mãe percebia o nervosismo da jovem através de umas mãos inquietas, tique que conhecia desde criança. Portanto o ataque teria de ser agora: - A menina acha que tem procedido bem nos últimos meses, não acha? - Eu não fiz nada de mal… - Ai não… Sai de casa a desoras, entra quando quer, faz negócios nas minhas costas, maltrata as pessoas, usa de um poder que não lhe foi conferido e ainda tem a ousadia de me dizer que não fez nada de mal… A rapariga encolheu-se qual cachorro atemorizado com um trovão forte. Por fim...

Resposta ao desafio...

... da Ana Chuva   Sinto nas mãos as lágrimas mansas Caídas de um céu cinzento. São cristais de vida, recompensas Que doravante eu acalento.   Sinto na face as lágrimas frias Tombadas de um negro sentido Relembro longas noites e dias De um amor quente e unido.   Sinto na roupa as lágrimas pesadas Repletas de força, poder e estreiteza. Vivo de ideias, de sonhos e estradas Todas alinhadas na minha tristeza.   Ai lágrimas, lágrimas do céu! Por que te chamaram de chuva? Se não és mais que um véu… E da minha amargura uma luva!