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A mostrar mensagens de junho, 2020

Ontem, hoje e amanhã

Ontem fui um curioso e travesso menino, De riso fácil, franco, sonoro e contagiante. Ontem fui um jovem arisco e sem tino, De ideia torta, teimosa e alarmante.   Hoje sou já um simples e triste velho De riso fácil, franco, sonoro e contagiante. Hoje sou um bizarro e arrogante relho, Todavia ainda de sonho esfuziante.   Amanhã serei uma mera lembrança, Do riso fácil, franco, sonoro e contagiante. Amanhã não serei mais que uma criança, Sem chama, sem cor, sem brilho de diamante.

Do baú... #5

Cinquenta anos, cinquenta palavras   Foram as palavras que nos aproximaram, Os ruídos que nos ameaçaram, Os desejos que se revelaram.   Brotaste ao mundo novas vozes, Flores regadas com lágrimas e suor. Obras-primas de noites tórridas.   Ora, cinquenta palavras passadas, Não há tempo para lembrar o passado. Unicamente para te amar.   Amadora, 11 de Maio de 2007

Do baú... #4

Escrever! Neste momento escrever tornou-se quase um vício. Custa-me estar sem passar para o papel branco (por enquanto) aquilo que sinto. E como sinto. Durante muitos anos achei que escrever era uma arte menor. Artistas, artistas eram os pintores, os músicos, os escultores. Porém fui apercebendo que este meu conceito traía com veêmencia a minha vontade. E assim quando um dia em Trás-os-Montes ouvi uma referência, achei que esse era o momento para recomeçar a escrever. Com maior ou menor qualidade, tanto se me dá. Certo é que desde esse dia em que decidi reiniciar a escrever, mais de 30 histórias sairam deste pobre coração. Para além de outras colaborações contínuas. Reconheço todavia que ainda não era bem isto que gostaria de um dia publicar. Alimento a ideia de escrever um romance, não daqules de fazer chorar as pedras das calçadas, mas um livro onde me revisse como um todo. A ideia surge-me como uma luz de farol. Mas não permanece o suficiente para iluminar o meu espírito vadio. Agua...

Do baú... #3

Aos meus filhos   Quarenta noites de vigília, Para o amanhecer mais tardio. Quarenta dias de sonho, Desmaiados num mar bravio.   Quarenta ladrões fugindo Da natureza, sua mãe, também Quarenta cestos empunhados Gritando loas a ninguém.   Quatro abraços num só, Parte de um mundo novo. Quatro esperanças renascidas Num grito que é do povo.   Quatro flores desabrochando Em pétalas sempre luminosas Quatro nós bem apertados Em lindas casacas sedosas.   Um momento só… Chega para se ser feliz.   Amadora 26/02/1999

Do baú... #2

Foram anos, semanas, dias, Virados para o poente da vida Onde noites bem quentes e frias Criaram uma guerreira desta vida   Quantas lágrimas caíram... Nessas mãos arrebatadoras! Quantos gritos se calaram... Entre vontades ameaçadoras   Ser poeta não é quem escreve Mas aquele que nunca mente. Pois o único amor que não trave O desejo, a força e a paixão que sente.

Do baú... #1

Introdução: Durante muitos e muitos anos foi rabiscando uns textos em blocos, cadernos ou até alguns foram escritos à máquina de escrever. Hoje comecei a recuperar alguns desses textos. A maioria são pedaços tristes, mal escritos e a requererem revisão. Mas prefiro deixá-los assim (quase) como o original. Chamarei a esta rubrica "Do baú..." e inicio com um pequeno e pobre poema que já não me lembrava de ter escrito mas que agora faz todo o sentido.   Sementes à Maria, mãe dos meus filhos   Ontem entre a tarde e a noite Lançaram-se as sementes à terra No solo fértil, gracioso e generoso E as dúvidas fecundaram certezas   Hoje as flores são já árvores Ainda de tronco frágil e inquietante Procuram protecção nos teus ramos Acham vendavais nos ventos   Amanhã serão frondosos pinheiros De frescas sombras e odores perfumantes Um dia cairão novas sementes à terra E tu serenamente verás novas flores.   Amadora 1990

A segunda vida de Elizário!

Acordou estremunhado como se tivesse dormido séculos. Deu por si sentado numa enorme sala toda pintada de branco. Ao seu redor não havia ninguém nem outro assento. Olhou à volta e não conseguiu perceber onde estava. Em frente apenas os traços de algo que poderia ser uma porta. Mas para piorar o cenário viu-se vestido todo de branco. Uma espécie de túnica envolvia-o em tudo semelhante aqueles acólitos que vira numa missa. A porta abriu-se finalmente e alguém também de branco aproximou-se de Elizário. Completamente calvo ainda assim tinha um ar simpático. - Elizário Mota, suponho. - C… certo! – respondeu o ilhéu. - Irmão quer fazer o favor de me acompanhar… - Sim! Passaram a porta e do outro lado o florentino pode observar um enorme prado verde, salpicado aqui e ali por velhos e frondosos carvalhos. Caminharam no prado alguns metros e quando Elizário olhou para trás já não viu a porta que lhe dera passagem. Com a curiosidade a morder-lhe as entranhas acabou por perguntar: - Onde estou se...