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A mostrar mensagens de abril, 2020

A cor e a dor

Vou brunindo esta minha alma Com pedaços de bela memória. Eram dias luminosos, de calma Alegrias sem fim, horas de glória.   Folheio agora páginas de vida, Bizantinas sinto-as finalmente. Porque ora o dia é uma ferida De uma primavera sem gente.   De que cor são as minhas lágrimas, Que sempre deveria ter vertido? Seriam pérolas de Brel, dramas, Orvalhos matinais caídos sem ruído.   Há neste sentimento uma certeza, De surdos gritos, suspiros e dores. Sei, nesta hora de doentia tristeza, Que é momento de colher as flores.

Contos tontos - 38

Sentado num cadeirão fundo Domingos olhava, com profunda tristeza, para a esposa deitada na cama repleta de tubos, máscaras, monitores e boiões que penetravam no corpo da doente. A espaços curtos vinha um enfermeiro ver como estavam todas as funções, acertava algo e despedia-se da visita: - Verá que vai recuperar depressa… - Obrigado… Parecia ter sido há breves minutos aquele episódio da entrada no seu gabinete como candidata à Direcção dos Recursos Humanos. A porta abriu-se e deixou passar uma jovem alta, loira, muito bem vestida e extremamente bonita. Domingos fixou os olhos naquela figura e o coração pareceu rebentar. - Não pode ser… ela! Mas… mas… é tão parecida… - pensou. Estendeu a mão num cumprimento. - Domingos Jerónimo, muito prazer. Faça o favor de se sentar. - Diana Tremês, muito gosto! A mão dela, delgada e fria, mostrava ainda assim uma firmeza incomum nas mulheres que ele conhecera. A entrevista correu bem e Domingos logo considerou que a pessoa tinha o perfil ideal para ...

As minhas palavras

Leio e releio novos e velhos livros, Páginas ricamente repletas, De histórias, romances e lágrimas, Cores, alegrias e esperanças.   Leio e releio recentes e antigos poemas, Compêndios perfeitos de outros cheiros. Pedaços de dor em palavras impossíveis, Muitas luzes, sonhos, gritos e paixões.   Leio e releio incontáveis palavras. Carregadas de garra, força e ensejos. São nacos de vozes impossíveis, Recheadas de ideias e saudade.   Das minhas… oh das minhas, sobram unicamente os desejos.

Desafio de escrita dos pássaros #2.12

Mote: Cada um come onde quer e repete se quiser! Elizário, ao invés do companheiro Niza, adorava trabalhar no campo. Pelo menos sentia-se em casa, se bem que a flora continental fosse um pouco diferente da Fajã onde fora criado. Poucos dias haviam passado desde que chegara à aldeia saloia, que ele percebeu ficar situada nos arrabaldes de Lisboa. O patrão, tal como ele, nascera no meio de couves, batatas, milho e palha e desde muito novo aprendera a correr atrás de uma charrua puxada a mulas teimosas. De forma que sempre que a noite chegava era vê-los a conversar amenamente sobre tratos e amanhos. Por seu lado o alentejano num ápice cansou-se de andar de enxada na mão a alinhar regos e a mondar batatas e logo que pode partiu para Lisboa onde esperava, afiançava ele, ganhar nova vida. Um abraço de despedida entre os companheiros de armas fora um momento único. - Cuida-te ó Flores… - Tu também Niza… Certa noite Joaquim Belmoço confessou à esposa: - Vê lá que tive de ir ao Alentejo buscar ...

Desafio de escrita dos pássaros #2.11

Mote: Actualizem-me, por favor! Desde que regressara do hospital o açoriano passara a ser mais moderado nos esforços. Essencialmente nestes... No entanto continuava a cuidar do quintal com afinco e porque não dizê-lo com uma ternura própria de quem amou um chão fecundo A menina da casa aumentava de volume conquanto avançava na gravidez. O marido cuidava dela com esmero, carinho e muito amor. E Elizário sorria em silêncio pois admirava o que via. Por aqueles dias lembrava-se da mãe já falecida, também ela constantemente grávida, mas que não recebia um avo de carinho do pai. Era a irmã mais velha quem acabava sempre por ajudar a progenitora nos afazeres domésticos. Outros tempos, pensava o veterano, enquanto lia um livro sentado numa cadeira no fundo do quintal, debaixo de uma frondosa laranjeira, onde as couves galegas, os tomateiros e as cebolas cresciam ordenadamente. O velho soldado aprendera a ler na tropa, mas fora ali naquela família que o acolhera sem saber porquê, que desenvolve...

Desafio de escrita dos pássaros #2.10

Mote: Não tenho tempo para te aturar. - Não tenho tempo para te aturar. - Hããã - Já te disse... chispa daqui... Niza olhava a mulher e alternava o olhar com o amigo Elizário. - Mas o que é que te aconteceu? - perguntou o alentejano. A mulher apanhava uma roupa estendida e dava pouca atenção ao recém-chegado. - Tu és mouco? Já te disse para ires embora. Vai à vida que a morte está certa... Mas o outro não estava com ideias de desistir e teimou: - Endoideceste? Escapei à guerra e em vez de me receberes de braços abertos repudias-me? Ela nem respondeu. Niza voltou-lhe então as costas e dando uma palmada em Elizário, acabou por confidenciar: - A minha irmã deve ter perdido o juízo. Só pode... O açoriano apaziguou: - Tem calma... deves ter feito alguma... - Eu? Há três anos que saí daqui. E virando costas decidiu: - Vá vamos embora… Regressemos a Lisboa. O florentino não gostou da ideia e olhando para o homem que lhe dera a boleia comunicou ao companheiro de armas: - Eu não saio daqui… - Ai...

Desafio de escrita dos pássaros #2.9

Mote: Tive uma ideia! Após o logro que fora a madrinha de guerra, Elizário regressou ao quartel para ser desmobilizado e eventualmente regressar à sua ilha. Todavia preferiu ficar na capital onde calculava que a vida lhe sorriria. Pelo menos era o que lhe afiançava o seu companheiro de armas, o Niza, que alimentara também a ideia de que ficar na capital seria melhor que regressar aos confins da aldeia onde nada havia de diferente. Só que o açoriano não sabia viver na cidade. Com o parceiro de armas alugou um quarto reles enquanto procuravam trabalho. De vez em quando caçavam um biscate aqui outro ali, mas nada seguro e que lhes desse algum futuro. Quando acabou o dinheiro foram viver para a rua… Deambularam pela cidade efervescente duma revolução que supostamente devolveria muito aos mais pobres. Porém continuaram em busca de um Sol que parecia não ter nascido para eles. Niza era vivaço, ladino e conseguia, quase sempre, algo das pessoas. Elizário mais soturno apresentava normalmente u...