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A mostrar mensagens de março, 2020

Toni, o americano!

Quando acompanhou os pais para os Estados Unidos, Antonino teria por volta dos 5 anos de idade. A vida na aldeia sabia a pouco para a ideia de Gabriel e da Alberta. Queriam algo mais para ambos e essencialmente para o filho único. Uma carta convincente do compadre Asdrúbal convencera-os a emigrarem. Vendido o azeite de duas temporadas, mais o milho e o feijão da colheita do ano, ao que se juntou uns patacos postos de lado pela esposa com a venda dos ovos, houve dinheiro para as passagens. Durante mais de quatro décadas esta família manteve-se assim em terras do tio Sam trabalhando e conseguindo o sucesso desejado. Com a grave doença de Gabriel, entretanto aparecida este, ciente do seu estado, pediu para morrer na aldeia que o vira nascer, pedido que foi rapidamente cumprido pela mulher e filho.  Adivinhava o aldeão, já que poucas semanas após a chegada, morreu devagar, qual círio sem pavio, na velha casa e cama onde nascera e vivera antes de emigrar. Ficou a viúva e o orfão Antonino qu...

Desafio de escrita dos pássaros # 2.extra

Elizário entrou em casa dos amigos de forma lenta. O enfarte tinha-o quase colocado no lado de lá. Todavia resistira com estoicismo e muita vontade de viver. E depois aqueles meninos… tão bons, tão amigos… Não os queria perder por nada deste mundo. - Para onde quer ir? Para o quarto ou prefere sentar-se aqui na sala? O florentino endireitou-se e devolveu: - Estive doente, mas já não estou… Portanto vou para o quintal. - Nem pense… o Elizário não está ainda em condições de andar nessas vidas. - Ai sim? E quem vai tratar da horta? Deve estar bonita e jeitosa, cheia de erva e mato. A amiga grávida acrescentou: - Deixe-se disso… ainda ganhamos o suficiente para comprar os legumes na frutaria… Agora repouse. Vencido mas não convencido o ilhéu preferiu a sala onde a televisão foi ligada. As notícias só falavam do novo vírus que alastrava a uma velocidade alarmante. Assim e farto de médicos e hospitais Elizário desligou a televisão, dirigiu-se ao seu quarto e de lá trouxe um livro. Aproveitou...

Contos tontos - 37

Acordou ao sentir a chave na porta. Abriu um olho e viu marcado no relógio da mesa de cabeceira: 3:20. - Cada vez chega mais tarde. E mais bêbado... - pensou. Porém ao invés da sua previsão, o homem entrou quase em silêncio, não acendeu qualquer luz, o que contrariava os seus antigos gestos, descalçou-se, despiu-se e meteu-se na banheira. Já no quarto com o pijama vestido aproximou-se da mulher que fingia dormir, deu-lhe um leve beijo na cara e sussurrou: - Desculpa. Sempre te amei e continuarei a amar-te. Ela estremeceu, mas continuou a fingir. Não sentiu o costumado cheiro a alcool, nem a tabaco e muito menos a perfume barato de alguma meretriz. Estranhou-o... Ele deitou-se finalmente, puxou a roupa para se tapar e fez por adormecer. Eram sete da manhã quando o despertador tocou. Ela mal dormira o resto da noite. Admirara-se daquela atitude e acima de tudo das palavras. O despertador tocava e não parava. Chegou junto do marido e abanou-o com força na cama. Este virou-se, mas foi o em...

Amanhã

Não há palavras nem poemas, Nem gritos nem beijos. Só esperanças e ensejos.   De um novo raiar luminoso, Há outros sonhos renovados Cem dias amargurados.   Desfolho estranhas semanas Repletas de páginas em branco, Dúvidas, desejos e pranto.   Dói-me a paz e o sossego A alma, o espírito, a emoção, A tua ausência e o coração.   Não quero perder o rumo, De te ver só mais uma vez, Liberdade!

Desafio de escrita dos pássaros #2.8

Mote: Foi tão bom, não foi Encostado à enxada de bicos gastos, Elizário mirando o quintal, sorria. Um mimo. Regos impecavelmente direitos, cômaros certos e as couves a crescerem com encanto. Sentia-se bem naquela família que definitivamente o adoptara. Ainda por cima agora que a sua conterrânea estava de esperanças… Avô… diziam-lhe que seria avô… Mas como se nunca fora pai? Era sempre com renovada alegria que o florentino chegava ao quintal e via o resultado do seu trabalho. Um manto verde, viçoso, fresco e pujante. Porém naquele dia o ilhéu levantara-se estranho. Acordara com um mal-estar que o incomodava. Todavia nem uma queixa já que não queria aborrecer ninguém. Sentia que algo não estaria bem… uma dor permanente no peito, alguma dificuldade em respirar… Quando acordou e tomou verdadeira consciência viu-se rodeado de um conjunto de aparelhos e tubos que entravam no seu corpo. A seu lado a sua amiga recente e o marido. - Olá… Que grande susto nos pregou…- disse o futuro pai, enquant...

Desafio de escrita dos pássaros #2.7

Mote: Escreve o teu elogio fúnebre Enquanto a viatura negociava as curvas lentamente, Elizário mirava os campos verdes salpicados por inúmeras cabeças de gado. A ladear tufos de hortências, ainda por desabrochar. Enquanto subiam a serra, o céu toldava-se numa chuva miúda ou num nevoeiro denso. - Olha o nevoeiro… - Junho é o mês deles.. – acrescentou a conterrânea. Quilómetros passados a estrada principiou a descer. - Sabe onde vamos, Elizário? - Oh, oh, nem imagino. - Lembra-se da Fajãzinha? - Se me lembro… - o olhar do florentino acabou por adquirir uma enorme tristeza. - Hum! Cheira-me que houve para aí uma história de saias… – calculou o condutor com um sorriso. Silêncio. Na estrada uma tabuleta indicava o caminho. - Vamos revisitar este lugar… Pode ser senhor Elizário? - Vamos onde mesmo? - Já vai ver. A estrada descia e tornava-se agora mais íngreme e as curvas mais perigosas. Finalmente o alcatrão desembocou numa espécie de largo. Pararam o carro e saíram todos. Ao fundo, não mui...

Desafio de escrita dos pássaros #2.6

Mote: oh não, um vírus outra vez! Havia algumas semanas que Elizário fora recolhido pelo casal, em que a jovem esposa tinha raízes na bela ilha açoriana das Flores. Após uns dias de adaptação a uma vida que jamais conhecera, o veterano chegou-se junto do marido e num tom sereno perguntou: - Senhor… até quando irei ficar aqui em casa? O rapaz percebia que aquele homem estava demasiado habituado à rua, ao frio, à fome e acima de tudo à tristeza e más lembranças. Pensou calmamente na resposta de forma a não ofender o ilhéu. Por fim: - O Elizário ficará aqui enquanto desejar… Não queremos, de todo, prendê-lo a nós. Gostamos de o ter cá, mas longe de nós forçá-lo… As palavras saíram calmas, quentes. A jovem chegou entretanto e escutando as palavras do marido convidou: - Quer ir até à nossa ilha? O conterrâneo ergueu os olhos para a anfitriã e quase num soluço perguntou: - Não está a falar a sério, pois não? - Claro que estou… Todos os anos vamos lá pelas festas do São João. Se quiser pode v...