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A mostrar mensagens de fevereiro, 2020

Desafio de escrita dos pássaros #2.5

Mote: acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se, conta-nos o teu dia Havia três dias que a chuva não dava descanso. Uma água pesada que encharcava terrenos e homens. A única coisa boa daquela intempérie era que dificilmente saiam do quartel para novas operações de guerrilha. Os terrenos completamente alagados não permitiam que as viaturas e homens circulassem. Deitado na tarimba por debaixo do camarada Teixoso, um beirão atarracado, valente e tal como ele sem quaisquer receios, Elizário fechava os olhos e de mãos atrás da nuca a fazer de almofada recordava da sua ilha a Fajã, o mar azul como não haveria outro, o canito magro e esfomeado, aqueles cordeiros que largara a pastar na encosta. Nessa tarde porém: - Ó Flores… o que é que neste momento te fazia feliz? Conta lá! – perguntou o vizinho de cima enquanto revia pela enésima vez uma revista de pouco pudor. Elizário estremeceu com o vozeirão de Teixoso e devolveu: - O que é que perguntaste? - O que te faria feliz… agora? - Feliz?...

Desafio de escrita dos pássaros #2.4

Mote: O google está errado. Com ambas as mãos Elizário segurava a cabeça suja. Já se arrependera mais que uma dúzia de vezes em ter acompanhado aquele jovem, que tanto insistira com ele para o levar até sua casa. Havia muito tempo que não entrava numa habitação asseada, onde os frescos cheiros domésticos não conseguiam sobrepor-se ao nauseabundo odor de alguém que vivia quase sempre na rua… - Senhor Elizário quer tomar banho? A questão fora formulada pela esposa. - Não se acanhe… senhor. Tem ali dentro uma banheira grande, sabonete e uma roupa limpa. Gostaria que soubesse que também nasci nos Açores. Elizário ergueu o pesado olhar para o rosto bonito da ilhéu e por fim perguntou: - De que ilha, senhora? - Sou da ilha mais bonita… das Flores. Definitivamente o idoso não soube lidar com tamanha emoção. Já era difícil conhecer alguém açoriano e muito menos da mesma ilha. Subitamente as lágrimas caíram pela face rasgada por profundas rugas onde uma barba cinza nascia sem destino. As saudad...

Desafio de escrita dos pássaros #2.3

Mote: manual para iniciar relacionamentos  Pegou no aerograma amarrotado e conferiu a morada. Batia certo. Agora faltava o número 27. Desceu a rua ladeada por prédios de três pisos e um frondoso jardim onde cameleiras, carvalhos e eucaliptos conviviam em harmonia. Achado o número procurou o andar seguindo as ideias do colega de armas, o Niza. Tocou no botão que dizia rés-do-chão e aguardou. O seu coração batia de excitação… Ninguém atendeu. Insistiu. Nada. Recuou dois passos e olhando para as janelas percebeu que as mais baixas pareciam fechadas. - Ainda é cedo – calculou. Sentou-se no degrau da escada e aguardou nem sabia bem o quê ou quem. Ao fim de um bom bocado apareceu uma idosa que ao aproximar-se da porta o cumprimentou: - Bom dia! - Bom dia minha senhora. - Espera alguém? O soldado desdobrou o aerograma e leu devagar: - Cecília de Jesus… - Não diga mais nada… sei muito bem quem é! Morava aqui em baixo no rés-do-chão, mas fugiu haverá aí seis meses com um miúdo que tinha idade p...

Desafio de escrita dos pássaros #2.2

Mote: É que isso de médicos, nunca fiando A sala enorme apresentava-se quase repleta. Sobrava um lugar aqui, outro acolá que rapidamente era preenchido por quem entrava. Do rouco altifalante saía de vez em quando um nome proferido por uma voz feminina. Automaticamente alguém se levantava para atravessar a porta de correr eléctrica. Sentado no fundo da sala Elizário mirava tudo em seu redor. Quando alguém se sentava a seu lado e o cumprimentava devolvia sempre a saudação. Quem nada dissesse ele respeitava. Decididamente aquele era um mundo assaz estranho… Gente nova e menos jovem, sozinhos ou acompanhados, demasiados caíam naquele antro quase sem darem conta. O ilhéu já habituado àqueles fortuitos convívios mudava todos os dias de sala de espera, não fosse alguém reconhecê-lo. A verdade é que desta forma o açoriano ganhava diariamente uma refeição grátis, oferecida pelas equipas de voluntários que, muito perto do meio dia, invadiam as salas de espera dos diferentes serviços. Abordavam-n...