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A mostrar mensagens de novembro, 2019

Desafio de escrita dos pássaros #12

Mote: Aqueles pássaros não se calam (Texto dedicado à Magda pelo seu aniversãrio!) Enquanto Beatriz devorava as “Viagens” da Magda Pais confortavelmente recostada num sofá e tendo a seus pés um Aissú atento e amigo, Malquíades sentado à secretária ia desfiando textos para o jornal. Os dedos fugiam céleres por entre as teclas do portátil. Parava, relia, revia, modificava e continuava. De vez em quando passava as mãos pelo cabelo, sinal que dúvidas lhe haviam assaltado o espirito. Depois, numa quase ferocidade, voltava a escrever. Era uma daquelas brandas tardes primaveris, sem nuvens e onde o sol quente invadia o lar através de uma janela e da qual se podia ver o pomar de laranjeiras, qual “orangery” no Palácio de Schönbrunn, em Viena. Uma paisagem bucólica carregada de beleza, paz e serenidade. Tal como ambos adoravam. Beatriz fechou o livro, ergueu-se do sofá devagar e quase em silêncio, aproximou-se do namorado, envolveu-o naquele costumado abraço quente, beijou os cabelos desalinhad...

Desafio de escrita dos pássaros #11

Mote: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação A luz da manhã incidiu nos seus olhos ainda fechados, acordando-o. Dormira bem! Espreguiçou-se e saiu da cama de forma calma. Voltou a espreguiçar-se… Entrou no corredor e reparou numa roupa estranhamente espalhada pelo chão: umas calças de ganga aqui, uma blusa acolá, cuecas mais à frente, meias… e finalmente um soutien! Pensou: - Mas quem é esta que está cá hoje? Cada noite é uma diferente, pobre homem. Desde que a Beatriz se zangou com ele por causa daquela tal Constança… Preocupado acabou por voltar atrás e foi-se novamente deitar. Enroscou-se e adormeceu. Já ia alto o Sol quando ouviu chamar: - Aissú, Aissú acorda… vamos à rua dar uma volta. Abandonou novamente a sua cama devagar, aproximou-se de Malquíades e recebeu uma longa e saborosa festa. Finalmente a rua onde pode aliviar-se e rever a cadela do segundo andar, uma cocker que ele tanto adorava. E ela a ele! Malquíades sempre fora de poucas palavras, mas...

Desafio de escrita dos pássaros #10

Mote: Já chegámos? Já chegámos? O autocarro negociava as curvas dos Pirinéus a boa velocidade. O condutor, um italiano de metro e meio, dirigia a viatura com perícia, sem nunca perder o controlo. A noite caíra há muito e uma chuva miudinha obrigava o motorista transalpino a uma condução mais defensiva. Uma paragem prevista numa estação de serviço deu para os passageiros esticarem as pernas. Malquíades procurou rede para telefonar a Beatriz, mas a operadora espanhola parecia não estar disponível. Finalmente o sinal de rede. Ligou: - Olá rapaz, onde estás? - Algures no meio de Espanha. - Não imaginas onde? - Não! - A que horas calculas chegar… - Provavelmente só ao fim do dia. - Não te esqueças de me trazeres caramelos… Nem respondeu! Desligou o equipamento e foi à loja comprar os doces. Decididamente tinha de perder o medo de andar de avião… Aquela viagem a Paris demoraria, pelo menos, mais dois dias só por causa desse estúpido receio. Voltou para o autocarro, sentou-se no seu lugar, ol...

Desafio de escrita dos pássaros #9

Mote: Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta  Tinha os olhos fechados, mas percebeu que estava ao ar livre. Deveria ser do Sol a bater-lhe no corpo com força ou da água tépida que lhe beijava os pés. As mãos estendidas qual Cristo cruxificado davam à situação uma bizarra anormalidade. Sentiu com a mão esquerda uma areia fina. O mesmo com a direita. Por fim abriu um olho e deparou com um Sol inclemente e um céu anilado e sem nuvens. Abriu o outro olho, mexeu-se e percebeu estranhamente… que estava nu! Ergueu-se e tentou perceber onde se encontrava. À sua frente uma praia calma fazia aterrar à beira-mar pequenas ondas. De um lado e do outro percebeu árvores… Porém para Malquíades nada daquilo fazia sentido… Beliscou-se temendo que fosse novamente um sonho, mas depressa percebeu que não era. Fechou os olhos e tentou rebobinar a sua mente até onde se recordava antes de acordar naquele ermo: assistira a um concerto com a Beatriz, depois fora a casa dela buscar o portátil e...

Desafio de escrita dos pássaros #8

Mote: Escreve uma carta para a criança que foste   Fechou o livro, colocou-o ao lado, olhou o tecto e largou um profundo suspiro. Beatriz deitada no sofá deu conta e perguntou: - Até onde foi esse suspiro? O namorado não respondeu. Deixou-se ficar ali a cismar, numa lassidão incomum. Na lareira ardia um fogo denso e crepitante que aquecia a sala. De um candeeiro vinha uma luz amarela quase tão quente quanto o lume. O ambiente propiciava ao sossego. - Malquíades diz-me lá até onde foi esse suspiro? – teimou Beatriz. Um silêncio. Por fim respondeu: - Até a um tempo… longínquo! Insistiu: - Nunca falaste do teu passado, mas não é por não se falar, que ele deixou de existir. Sempre senti que há algo, aí nesse coração, mal resolvido… Novo silêncio. As palavras eram sempre tiradas a ferros… - O meu pai… Nunca conheci verdadeiramente o meu pai… - Não queres falar disso agora? - Não… - uma longa pausa - preferiria escrever… um dia! Fez-se luz na mente de Beatriz. Talvez conseguisse que Malquíad...