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A mostrar mensagens de outubro, 2019

Desafio de escrita dos pássaros #7

Beatriz sentiu o telemóvel tremer no bolso de trás das calças de ganga. Alguém lhe estaria a ligar, quiçá Malquíades, que após o esquecimento do jantar daquela sexta-feira, de má memória para ambos, fora votado a um longo castigo por ela imposto, mas que ele nem daria conta. Continuou por isso a pintar calmamente uma enorme tela até que, já extenuada, decidiu parar. Recuou uns passos e ficou a observar o trabalho pictórico acabado de fazer. Esboçou um sorriso malandro como prova de que gostara do que via. Desembaraçou-se do avental sujo de tinta, descalçou as luvas, bebeu uma garrafa de água e finalmente sentou-se para ver o telemóvel. Acertara na chamada de Malquíades. Ligou de volta: - Olá boa noite, ligaste-me? - Sim. - E… - decididamente o homem não largava os monossílabos. - Hummm… não sei como dizer isto… Beatriz ergueu-se de um salto… Na sua cabeça aquela derradeira frase do namorado trazia algo estranho e o coração começou a bater mais depressa. Provavelmente esticara a corda e...

Desafio de escrita dos pássaros #6

Mote : "O Amor, uma cabana… e um frigorífico"   Estava tão embrenhado na revisão dos textos que acabara de escrever para o jornal que nem deu pelo telemóvel tocar, principalmente por aquele estar sem som. Eram quase 22 horas de uma sexta-feira invernosa. Lá fora a chuva, sempre tão escassa, caía em torrentes quase diluvianas e o vento ajudava ao temporal. Um sopro sibilino, de alguma janela mal fechada, escutava-se… Quando Malquíades descolou finalmente o olhar do monitor e o endossou para o aparelho telefónico que jazia a seu lado na secretária, percebeu que alguém lhe estava a tentar ligar. Pegou nele e leu: Beatriz! - Olá! - Olá? Está tudo bem contigo? - Sim. - Pronto era só para saber… Malquíades percebeu na voz da interlocutora algo que se assemelhava a um sarcasmo. Achou profundamente estranho, já que não era costume. Porém e sem saber muito bem porquê perguntou: - Passa-se alguma coisa? - Oh não, nada… Estás a trabalhar, não é? - Sim. Os monossílabos a imporem-se no di...

Desafio de escrita dos pássaros #5

Mote: Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo   Quando chegou encontrou uma fila enorme. Aproximou-se do último: - Boa tarde, o que se passa aqui? - Boa tarde…. Há uma embrulhada qualquer lá para a frente. - Sabe o que é? - Parece que não querem deixar entrar alguém… - Isso faz algum sentido? - Não sei. É a primeira vez que estou na fila para o Purgatório. - Há quanto tempo aqui está? - Humm… deixe cá ver… Praí há uns 15 anos. - Acha que posso lá ir? - Vá, vá… não se empate comigo… Foi passando pelo aglomerado até que ao fim de muito tempo encontrou novo amontoado de cabeças. Aproximou-se devagar até que chegou perto duma porta onde duas pessoas trocavam-se de razões: - Então boa tarde… o que passa aqui? – Questionou. Um dos contendores respondeu célere: - Este espécime de gente quer entrar no Purgatório e eu não quero… – respondeu o que parecia ser o porteiro...

Desafio de escrita dos pássaros #4

Mote: A Beatriz disse que não. E agora?   Sentado numa esplanada Malquíades olhava o mar em todo o seu esplendor. A linha do horizonte divida-se entre o anil do oceano e os tons alaranjados de fim de tarde onde o sol tendia a desaparecer. Corria uma brisa leve. Olhou o relógio e mostrou real preocupação. Espreitou para lá do caminho, mas só via gente desconhecida como se olhando fizesse aparecer alguém. Pegou no cachimbo, encheu o fornilho, calcou o tabaco, furou-o para que o ar circulasse e finalmente acendeu-o. No ar pairou um ar doce e perfumado do fumo. No instante seguinte Andrelino sentou-se sem que Malquíades tivesse dado conta da sua chegada. Finalmente: - Então? - A Beatriz disse que não… O jovem puxou de uma fumaça, expirou o fumo, beberricou a cerveja que tinha à sua frente, recostou-se na cadeira e ficou a olhar novamente o mar. Andrelino pediu ao empregado também uma imperial e aguardou que o amigo se recompusesse do choque. Já de cerveja na mão bebeu um bom bocado e ataco...