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A mostrar mensagens de maio, 2019

Contos Tontos - 36

Sentada na varanda num velhíssimo cadeirão e rodeada de uma profusão de vasos com flores de todas as cores e espécies, Guiomar olhava a rua de quase nenhum movimento. Era geralmente assim. Talvez ao fim de semana houvesse mais gente na rua, mas com pouca diferença. Ao longe o som estridente de um comboio que saía da estação ou de uma ambulância. Vivia só, desde a morte do marido Gervásio, haveria dez anos. Os filhos haviam partido em busca de vidas próprias. Raramente falavam à mãe. Todavia diziam sempre: “Se necessitar de alguma coisa ligue para este número de telefone…” Guardava-os à vista mesmo ao lado do aparelho telefónico. Entretanto todos os dias recebia a visita rápida das meninas da Misericórdia, que ali vinham entregar o que seria o seu almoço e jantar. E a elas devolvia invariavelmente uma flor que retirava de um dos seus vasos. A roçar os 90 anos Guiomar olhava o mundo com serenidade. As pernas eram o seu pior problema e daí jamais sair de casa. Muito devagar saía do quarto...

Santa Ana

Assim que Mário principiou a andar, com pouco mais de um ano, depressa ganhou a alcunha de Faísca tal a velocidade com que corria. O epíteto fora-lhe atribuído pelo avô João, velho arrais da traineira Santa Ana. Muito cedo o miúdo iniciou o seu gosto pelo mar e pela pesca. Pudera pois tanto o avô como o pai Bento lavravam diariamente o mar colhendo pescado que vendiam ao desbarato, mas que ainda assim dava para alimentar as bocas de casa. Aos cinco anos o petiz já conhecia todos os peixes e as suas variantes. Mais tarde, mal saía da escola, o Faísca corria para o porto em busca da pequena traineira familiar. Encontrava quase sempre o pai e o avô a remendar redes, num trabalho moroso e chato, porém necessário. Sentava-se ao lado deles e olhava a linha do horizonte onde os diferentes azuis se tocavam. E desejava, queria, sentia aquele mar anil a bailar dentro de si. O pai percebia aquele olhar e antes que lhe desse alguma ideia, determinou: - Filho meu nunca será pescador! Não é vida par...

A aposta

Era uma daquelas noites de invernia onde o frio obrigava a que todos permanecessem em casa ao redor de um fogo crepitante e acolhedor. Todos, todos não, que os homens preferiam o ambiente enublado, azedo e assaz barulhento da taberna do Tó Careca. Ao redor das mesas grupos de homens jogavam às cartas ou ao dominó. Não sendo a dinheiro todavia quem perdesse um conjunto de dez jogos pagava uma rodada aos adversários. Ou era a sueca com as cartas muitos negras e claramente conhecidas de todos ou então â tranca uma espécie de canastra, jogo trazido para a aldeia por um antigo emigrante. Por detrás do balcão o Tó ia servindo copos de tinto ou cortados. Sempre de forma lenta e pausada que os seus setenta anos e as varizes não o deixavam andar mais depressa. Com o passar das horas o vinho tendia a fazer das suas e a alterar o discernimento e as conversas dos jogadores. A certa altura o Augusto levanta-se da mesa e enquanto o parceiro embaralha mal as cartas, declara: - Vou beber este copo pel...