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A mostrar mensagens de abril, 2012

Em passo de dança

Tamborilava os dedos no volante ao som de Sultans of  Swing, dos Dire Straits. Uma música que ele simplesmente adorava e que estava a tocar na Rádio Nostalgia. O trânsito naquela manhã desenhava-se caótico. Filipe experiente e conhecedor logo se lembrou:  “Deve ser algum acidente”. E como costumava dizer para si e para os outros, o que não tem solução está solucionado por si, não se preocupou. À sua volta as pessoas dentro dos carros reagiam de forma diversa. Atrás uma senhora que já passara o meio século acabava a sua maquilhagem, aproveitando o espelho do pára-sol. Na sua frente uma carrinha fechada, impedia de ver o quer que fosse para a frente. À esquerda evoluía um passeio e finalmente à direita, uma jovem mulher olhava para ele de forma espantada. E sorria. Assim que a viu, juntou a música aos seus dedos e percebeu que ela reparava naquela sua postura alegre e descontraída, tendo em conta a manhã. O trânsito palmilhou cinco curtíssimos metros. Devagar. Ele voltou a olhar para a j...

Contos Breves - João Grande - XXXVII

Morreu o João Grande. Assim era conhecido João Ambrósio Cachopo. Finou-se sozinho numa valeta perto de uma regueira que guiava a água desviada da ribeira para um lameiro distante. O corpo já morto foi avistado por dois caçadores que casualmente por ali passavam em busca de alguma lebre. A seu lado, imóvel e silenciosa, jazia uma bicicleta velha, última companheira de um desgraçado. João era o filho mais novo de uma ninhada de quinze, dos quais três haviam já perecido, ainda antes de ele nascer: dois rapazes gémeos, ambos deficientes que morreriam três dias após terem vindo ao mundo, mas com direito a nome e a baptismo. O outro fora Herlander, o mais velho da irmandade que falecera na ponta de uma naifa assassina, numa rixa estúpida por questões de amores idiotas por uma mesma mulher. O benjamim foi naturalmente criado e educado pelas irmãs mais velhas, já que a mãe que o parira com despeito e raiva, jamais quisera saber do filho recém-nascido. A fome naquela família era uma constante e...

Contos Breves - O avô, o pai e o neto - XXXVI

Não gostava de todo da alcunha com que o povo o tinha brindado. De todo. Mas ela correspondia justamente à sua forma de estar na vida. Ernesto de nome, todos o conheciam como o "Despachado". Desde criança, sempre que alguém lhe pedia alguma coisa, ele não parava enquanto não fizesse o que lhe tinha pedido. Já homem, quando os outros começavam a azeitona, já ele colhera a dele. Casou já tarde, mas em pouco mais de dois anos a Zélia pariu três filhos. - Estou despachado! - Concluía com ar triunfal. Mais uma razão para o epíteto. Certa madrugada fria e ventosa de inverno o aldeão aparelhou a burra com albarda, apertou-lhe a cilha, subiu para o lombo do animal e partiu para a feira de S. Sebastião, a três léguas de distância. Havia muitos anos que Ernesto não fazia aquele percurso a pé ou mesmo a cavalo. Geralmente encomendava pelo Tó Pisco as sementes ou alguma alfaia que pretendia. Mas aquele falecera entretanto e ele não confiava em mais ninguém. Assim, era a sua vez de partir...

Contos Breves - O Banho - XXXV

  Amílcar lançou a pedra rente à água. Aquela saltitou uma, duas, três vezes sendo definitivamente engolida pelo charco. Pequenas ondas em círculos perfeitos cresceram e alargaram-se para as margens até desaparecerem na praia de barro escarlate. Um assobio agudo e estridente trouxe-lhe o seu inseparável companheiro. Surgiu do meio do mato de rabo alçado, orelhas espetadas, feliz por rever o jovem. Uma carícia humana desceu ao pêlo sujo e revolto. Devolveu o gesto com uma lambidela terna. -          Onde estavas Festas? Hum... tás com ar de quem já bifou algum coelho, não? O animal ladrou, como se entendesse o que o rapaz perguntara. Seguiu-o com a natural alegria como que fosse manjar um suculento repasto. Cão de muitas raças mas de um só dono. Amigo fiel. O catraio acabara de sair da escola. Passou pelo charco e correu a casa, onde devorou um prato de feijões frios e mal cozinhados e saiu rapidamente em busca de outras aventuras. Calcorreava carreiros e trilhos que ninguém mais trilha...

Contos Breves - O Primo Alcides - XXXIV

O meu primo, Alcides da Costa Botelho, nasceu tal como eu, numa aldeia longínqua que se ergue no sopé duma serra onde ninguém vai e raramente de lá vem alguém. Vim eu por força do Serviço Militar Obrigatório, e como não apreciava as manhãs encieiradas do Inverno rigoroso, que descia encosta abaixo, nem as madrugadas demasiado tépidas do Verão escaldante, por cá fiquei e veio recentemente o meu primo. Este parente próximo em relações familiares e em amizade – quantas horas havíamos passado, debaixo do velho sobreiro, tentando prever o futuro ainda distante – já ultrapassara a idade dos quarenta. Dizia-me com graça, sempre que nos víamos: -          Isto é uma porra! Assim que os anos entram pelo “cu”… estamos entregues! E ria-se ruidosamente com gosto mostrando parte da boca onde já faltavam alguns dentes. Apesar dos anos, permanecia puro e ingénuo que nem uma criança. Solteiro, nele não havia maldade, mentira ou rancor. Tudo era simples e sóbrio. Sério como poucos negociava as suas col...

Contos Breves - Pensão Esperança - XXXIII

Tresandava a lagar. Em meados de Novembro vivia-se o apogeu da colheita. As oliveiras vergadas pelo peso dos lutos obrigavam à azáfama da apanha. Ranchos de homens e mulheres, vindos de partes incertas espalhavam-se pelas fazendas, emaranhando-se pelas árvores ou venerando-as numa religiosidade invulgar. Os lagares laboravam desde cedo até noite profunda tentando dar vazão aos carregos amontoados debaixo de velhos telheiros em paciente espera. No interior as possantes galgas rodavam em infinita perseguição, esmagando impiedosamente à sua passagem, a azeitona madura por um estio quente e seco. Ao centro do lagar, erguia-se a prensa que docemente ia apertando as ceiras num abraço irreversível e violento. Estas carpiam então lágrimas viscosas e brilhantes que escorriam em torrentes de mágoas e de dor, até à tarefa. Antes do último aperto, homens sujos de gordura viscosa e seminus escaldavam as ceiras com água a ferver, saída da caldeira, centro de atenções e calores exigidos pelos dias fr...

Contos Breves - Duas lágrimas - XXXII

A madrugada gelada é rendida por uma manhã muito fria e límpida. A erva rasteira, encrespada pela friagem pinta o chão da cor da neve. Paira na atmosfera um forte odor a lenha queimada das lareiras ainda acesas. A isso obrigou a noite teiró. Celestino abre a porta, observa o firmamento anil e reentra. Sai logo a seguir envergando um casacão pesado mas quente, única herança dos tempos de marinha e das auroras num convés irrequieto. E ele que sempre preferira a terra debaixo das botas quase rotas, ao mar, sentira no âmago, naquele tempo de tropa forçada, o abrupto balançar de um navio abandonado à sabedoria do comandante e aos inconstantes humores de Neptuno. Entretanto escancara a porta de madeira da arrecadação donde retira o serrote mal travado e o podão pouco cortante. Desta vez dá ripanço à fria enxada, sempre pronta a esventrar a terra negra e fértil. O sol desponta timidamente ao longe, carregando luz, cor e algum afago. Uma brisa sacode docemente as árvores num vaivém sereno. Est...

Contos Breves - A Viúva - XXXI

-       Ai o meu homem… ai o meu homem… - clamou Natália numa estridente gritaria e alvoroço. Os gritos lancinantes alastraram-se pelo vale de gente sã e pacata, preocupada unicamente com o azeite do lagar e o milho na eira. A mulher calcorreava em passo apressado o pequeno declive que nascia na frente branca e florida da sua casa e morria na estrada principal poeirenta e irregular. Os tamancos batiam no chão e soavam a castanholas. Os braços envolviam a cabeça como um novelo e as lágrimas caíam a rodos, cara abaixo. Ao pranto desesperado da Natália acorreram diversas vizinhas, vindas sabe-se lá de onde e alarmadas com tamanha carpideira: a Idalina, a Irene, a Maria Chica -       Que se passa mulher de Deus? – perguntou assustada a Idalina com quem a Natália não falava para mais de quinze anos por causa de uma parvoíce. -       O meu homem… ai o meu homem… - e o alarido quase que a sufocava. A respiração ofegante e o fervor de um coração abalado quase a não deixavam falar. -       Diz-...