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A mostrar mensagens de março, 2012

Contos Breves - Amor Tropical - XLI

O corpo esbelto e bem torneado de Regina era o tema de todas as conversas no povo. Chegara havia semanas acompanhada do pai Bernardo, um filho da terra que partira para terras de Vera Cruz havia mais de trinta anos e durante todo esse tempo jamais comunicara com a aldeia que o vira nascer. Regressara finalmente acompanhada pela filha de pele morena, queimada pelo sol tropical e longos cabelos loiros, tal qual a seara de trigo, que tantas vezes em gaiato ajudara a ceifar. A jovem, era agora alvo de falatório aguçado e viperino. As mulheres quase todas viúvas, mal casadas ou mal amadas, respingavam com azedume palavras ásperas com o intuito de magoar pai e filha: - Uma desavergonhada! Uma tentação do Diabo! - Doidivanas é o que é! Que descaramento! Vir para aqui assim… naqueles propósitos… E o assim correspondia a saias muito curtas, evidenciando um par de pernas bem desenhadas e acobreadas. A jovem, porém, não temia os ditos. Sorria, apenas. Havia muito tempo que se habituara a ser o ce...

Contos Breves - A estória de Zézita - XIX

No quarto atarracado e humilde, duas mulheres rodeavam Maria da Glória, que sofria atrozmente para parir. Uma, a Josefina era a parteira, mulher forte e experiente naqueles trabalhos de pôr no mundo nova gente, a outra era a Almerinda, mãe da parturiente. Ao lado, na sala rústica que servia também de cozinha João, marido da parturiente, guardava ao lume a panela de ferro com água. Sempre que ouvia a mulher gritar tragava de uma penada um cálice de aguardente como se ele apagasse os gritos e acalmasse o sofrimento. Quando uma das mulheres saía do quarto em busca de água quente, o patrão perguntava: -          Então, ainda falta muito? -          Está quase, João, está quase! – Respondia invariavelmente. E voltava a entrar no quarto. Novo grito e mais um cálice. Ao fim de um bom bocado a velha Josefina aflorou à porta para comunicar o nascimento da criança e encontrou o homem completamente bêbado ressonando em cima da velha mesa de madeira. -          João acorda! – tentou a parteira sac...

Contos Breves - Ana Descalça - XXXIX

Viviam-se tempos incertos. As terras mal amanhadas exigiam braços para lavrar e deitar ao solo as sementes para nova colheita. O Francisco Xavier olhava a fazenda coberta de erva e mato, subia a pala da boina até ao topo da testa e lamentava-se: - Quando é que vou ter este chão lavrado? E respondia logo de seguida: - Nunca! A leira estendia-se da baixa da Ribeira das Mós até ao cimo onde iniciava a tapada do ti’Brito. A brisa daquele fim de tarde carregava frescura e parecia anunciar chuva: - E se chove ainda por cima… A chuva seria bem vinda, mas só depois da sementeira. Até lá haveria de arranjar braços. - Mas onde?... Nessa noite na taberna enquanto dormitava entre dois copos de três, encostado à mão calejada, ouviu o Joaquim Goivo a falar sobre umas mulheres que trabalhavam a terra, tal qual um homem. O preço era mais barato e no despacho era semelhante ao que dava um homem. Ouvido atento Chico deixou que o outro fosse soltando a língua. Para isso pagou mais um copo: - … Traçadinho...

Contos Breves - As Pias da Ladeira - XVIII

Do fundo do vale profundo não se vislumbra na serra um pequeno declive, a que se dá o nome de Pias da Ladeira. É um local sereno de terra centieira e onde o horizonte parece ficar para lá do infinito. Em tempos idos, viveu neste lugar uma família, constituída por um casal já idoso e três filhos: dois varões fortes e esbeltos e uma rapariga jovem e atraente. A casa, de pedras cinzentas e frias, unidas com barro, era acanhada mas resistente. Nos invernos mais rigorosos o vento conseguia fazer-se ouvir por entre as velhas telhas cobertas de musgo, enquanto a chuva batia com violência nas vidraças. Porém, o calor de uma lareira de labaredas sempre crepitantes e desiguais mantinham o lar quente e acolhedor. Ladeando a casa ficavam quatro generosas pias, que davam o nome ao lugar e que a mãe natureza ali deixara como exemplo do seu poder de esculpir na rocha. Cobertas com largas lajes de pedra, ali colocadas por mão humana, só se abriam com esforço e em época das chuvas. Enchiam-se então até...

Contos Breves - Um dilema - XVII

No sopé de serras profundas, rodeada de escarpas íngremes e encostas inacessíveis eleva-se um pequeno povoado. O granito áspero e frio forra as casas gémeas de dois pisos. Em baixo repousam os animais e guarda-se o vinho e o azeite. No andar superior vive a família em ínfimos quartos, onde mal cabe a ferrugenta cama de ferro e uma sala onde a lareira é o centro do lar. O chão das ruas estreitas, onde um carro de bois passa à justa, alterna entre a lama viscosa no Inverno rigoroso e o pó seco no Verão tórrido, que penetra nos lares depositando-se com suavidade nos velhos móveis carunchosos, formando uma fina camada, que as mulheres tentam em vão dissipar. Atravessa a aldeia, uma pequena ribeira que nos seus momentos de maior fervor, trazido pelas chuvas ou pela neve serrana, transborda e alaga os lameiros cincundantes. Contudo pelo Estio como que adormece e somente um pequeno fio de água vai serpenteando por entre pedras redondas e brancas. Os homens pela manhã, transportam ao ombro vel...

Contos Breves - O Filho do patrão - XVI

Bateram na velha porta de madeira duas vezes. -          Entre! – Ordenaram de dentro. -          Posso pai? – Solicitou o jovem, humildemente. Os olhos do homem ergueram-se dos papéis e dirigiram-se no sentido do filho. Olhava-o agora por cima dos óculos graduados que o ajudavam a conferir as contas. -          Tu? Por aqui? – Perguntou - Entra vá! – Concordou o pai sem esperar que o varão respondesse às duas perguntas. O jovem carregava um tabuleiro, onde um bule fumegante acompanhava a respectiva chávena e dois pequenos bolos de leite. Era a costumada merenda. Chá sem açúcar e bolo. -          Não te conhecia esse teu jeito para criado... – ironizou o pai. -          Pois... – devolveu atrapalhado o filho - ... a Custódia estava para entrar e eu ajudei-a apenas a entregar a sua merenda. -          Poisa aí em cima dessa mesa o tabuleiro e podes sair. O rapaz largou a bandeja mas não saíu. O pai mirou-o uma vez mais e percebendo a imobilidade do filho Jorge, recostou-se no velho cade...

Contos Breves - A Maldição - XV

Ilídio entrou em casa e logo ali descarregou as seis arrobas em cima de um velho cadeirão. Este, rangeu ao peso abrupto do corpanzil mas manteve-se aparentemente incólume sem mais agrura. O homem retirou a boina surrada e suja, deixando antever pequenos tufos de cabelo suado cor de neve e que tentavam ingloriamente esconder uma evidente calva. A mulher lavava ainda a loiça do almoço e esperou que o marido dissesse algo. E não demorou: -       Comprei a azeitona da Quinta da Trindade - disse com ar triunfante. Um silêncio incrédulo pairou no ar antes que o homem voltasse à carga: -       ... Pois foi... Comprei aquele olival... Parecia uma criança a quem deram um brinquedo novo. Um sorriso sincero rasgava-lhe a face morena. Finalmente a Mércia devolveu num tom pouco apaziguador: -       Mas tu endoideceste, homem? Deves ter pago uma fortuna! Quero saber onde vais arranjar o dinheiro para pagar ao dono. O homem parecia que adivinhara a pergunta pois logo retorquiu: -       Mas tu não sab...

Contos Breves - Sílvio Agreste - XXXIX

Quinze anos, espigados e imberbes; cabelo curto como restolho, olhos castanhos, vivazes e atentos; boca grande denunciando dentes negros e mal tratados, tez morena. Assim era Sílvio, nascido e criado numa aldeia beirã embutida na serra pedregosa e fria nas invernias que tombavam serra abaixo e demasiado quente no Estio impossível de respirar, espraiando-se a seus pés planícies e charnecas férteis, cruzadas por ribeiros que encharcavam os lameiros sempre que a torrente vinda da encosta assim o exigia. O rapazola, aos olhos do povo mordaz e cruel, tornara-se num gaiato bizarro. Não tinha amigos, não falava com ninguém, apenas breves e imperceptíveis saudações por quem passava, desaparecendo dias inteiros só surgindo véspera fora. A mãe ralhava-lhe num discurso que sabia de cor e já nem ouvia. As irmãs, raladas umas, outras nem tanto, dividiam-se entre o incondicional apoio à mãe ou ao mano rebelde: - Sílvio por onde andaste? – Perguntava Auzenda em tom azedo e ríspido como era seu timbre...

Contos Breves - A Lua, amiga e confidente - XXXVIII

Eugénia deitou-se. Desde as 6 da manhã que andava a pé, num afã costumado e cansativo. Nem as refeições eram momentaneamente repousantes. Havia sempre alguém da casa que clamava e exigia a sua presença. Puxou o lençol para cima e tapou-se. Não era que tivesse frio, porém fora um hábito que adquirira desde criança. Pela janela escancarada viu a Lua, sua amiga e confidente, que do alto do firmamento negro ouvia em silêncio a mulher triste desabafar, quase em surdina: - Um dia parto... Sem destino. E após um longo silencio continuou: - ... Parto para longe, onde ninguém me conheça... A confissão quase ameaça era, havia muitos anos, repetidamente a mesma. Mas ia ficando, sempre. Primeiro porque os gaiatos exigiram cueiros e cuidados permanentes. Mais tarde pretendiam batas limpas e asseadas na escola e agora crescidos nem sabia porquê, tudo servia de razão para ficar mais um dia, uma semana, um mês. E este último somado a tantos outros entornavam-se em anos e anos e anos… A noite cálida e ...

Contos Breves - Um burro... velho - XIV

A casa do Manuel da Foice ficava no cimo de uma ladeira, afastada da estrada principal de terra batida uns duzentos metros. O acesso tinha gravado no chão duas linhas paralelas, denunciando os rodados frios e frequentes da carroça. Esta era puxada por um velho jerico de cor cinza e que já denunciava a sua idade pela maior teimosia e pela dificuldade que mostrava ao subir a aceguia que terminava no palheiro retemperador. Havia muito que o camponês se apercebera que o animal já não era o mesmo e assim convenceu-se em levá-lo à feira de St. António e vende-lo por lá. Sempre haveria alguém disposto a comprar o animal. No dia do mercado aparelhou o burro e pôs-se a caminho. A noite perdia o fulgor e dava direito à madrugada fria. As quase três léguas ainda levavam o seu tempo a percorrer, mas ainda assim o asno andava menos mal. Os primeiros feirantes abriam as suas tendas quando o viajante chegou. À entrada encontrou o compadre Casimiro e logo este o desencantou: -          Eh ti’ Manel, t...