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A mostrar mensagens de fevereiro, 2012

Contos Breves - O Nome Pedro - VI

I Em época de sementeiras ou de colheitas homens e mulheres estendiam-se pelos campos, venerando a terra num gesto repetido. Os garotos mais velhos ajudavam a mãe ou o pai, os mais novos ainda brincavam com uma lagartixa matreira, desvendada em cima dum marouço de pedras. É neste ambiente rural de fadigas que vamos conhecer Teodolindo e Maria Otelinda. Ainda na flor da idade e sem filhos, o casal vivia do que a terra, quantas vezes ingrata, lhe oferecia. E tamanha dedicação à lavoura levara já a mulher a queixar-se ao marido: - Ó homem de Deus tu ainda te matas a trabalhar.  Não aguentas uma vida assim de canseiras. Tens de arranjar quem te ajude... Realmente o camponês consumia-se em labor. Ainda a madrugada não se vislumbrava no horizonte e era vê-lo já a caminho da horta. E transformava-se o entardecer em noite cerrada quando regressava, enfim, ao lar arrastando as botas sobre o peso da canseira diária. “Um moiro de trabalho” diziam uns, “trabalhador como o pai” comentavam outros. T...

Contos Breves - Uma Noite do Diabo - V

A noite tépida e celeste amaciara a véspera assaz quente. Pela madrugada a leve brisa sopra no pinhal sobranceiro como de uma carícia se trate. O Estio neste ano ostenta-se longo e rigoroso. Há quem garanta que é tempo suão. Seja como for, a canícula obriga os corpos a buscar refúgio na sombra de uma azinheira ou debaixo de um frondoso pinheiro manso, de onde tombam pequenas e redondas pinhas meio abertas, espalhando pelo solo as sementes secas. Também o gado sofre com o excesso de calor e até os poucos queijos feitos por esta altura não têm o mesmo sabor. Zeferino Bogas acorda e levanta-se muito cedo. Retira do curral as ovelhas para ordenha e deixa alguns dos borregos mais crescidos escapar para o lameiro no fundo da horta onde medra erva fresca e suculenta que cresce à custa de regas quase diárias. Enquanto a Maria Lucinda prepara numa cafeteira escarvoada o café da manhã, o campesino vai mugindo as ovelhas com a habitual perícia e rapidez. O dia vai despontando e com ele aviva-se o...

Prosa-poema para um fim de tarde

Daqui deste alto, tão alto onde toco as estrelas, Vejo a linha de horizonte, ténue Onde singelos pontos brancos roçam o céu.   Daqui deste alto, tão alto, onde abraço a Lua, Noto alvas e serenas almofadas, onde o sol, por fim, irá repousar. Daqui deste alto, tão alto onde me sinto voar Descubro o milhafre em voos brandos, pacientes, Mira a sua presa perfeita e ingénua. Daqui deste alto, tão alto agarro o vento, Percebo a planície recortada por plúmbeos traços, Alagar o vale de esperança primaveril. Daqui deste alto, tão alto, há quem veja o mar, Pode ser que sim… Mas eu também não sei o que é o mar!

Contos Breves - O Natal de António - IV

António adorava os aromas do Natal. As fragrâncias que vagueavam pelas ruas frias e estreitas da aldeia apaziguavam-lhe o espírito rebelde, pois evocavam memórias da mãe já falecida e que por aquela época sempre arrancava à labuta da lida da casa uns momentos para preparar uns doces. As filhós e as rabanadas eram os seus favoritos. Mas as velhoses e arroz-doce também tinham a honra de pertencerem a uma consoada austera. Porém todas essas essências não passavam de uma ténue referência a um tempo pobre mas feliz, em que o pai não se embebedava nem lhe batia. Recordava-se dos irmãos que brigavam ruidosamente junto à cortelha dos porcos, obrigando a mãe a constantes ralhetes. Vinha-lhe à ideia um grande cão, de nome Tejo, que ladrava constantemente e um burro que zurrava com fome. Lembrava-se da cama compartilhada com dois irmãos mais velhos e das noites de temporal em que ninguém dormia porque a água da chuva caía a rodos no interior do quarto. Após a morte da mãe, ainda rapazola, saiu de...