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A mostrar mensagens de janeiro, 2012

Saudade

Desbravo estas poucas palavras Que elas matam as saudades de ti. São folhas levadas pela brisa, Repousando no teu terno regaço.   As tuas lembranças são-me tão caras E os teus lábios sedosos tão fiéis. Que os sinto quentes, fervorosos, Como me tocassem neste instante.   Há no teu sorriso transparente O fogo eterno da paixão bravia, e do amor feroz que rasgámos, em longas noites de lua cheia.   Quando sinto só, sei lembrar-te: o olhar vivo, os lábios sedosos, o corpo frágil, o cabelo em rebuliço a vida envolta num pensamento.   Depois… depois quase feliz, Respiro enfim, um ar perfumado… É o vento que me traz o teu aroma… A mar…e amar a terra fecunda…

Contos Breves - A Pedra Quente - III

    Maria Clementina ou Tininha como os mais chegados lhe gostavam de chamar era a mulher mais bonita da aldeia. Os seus longos cabelos negros caíam-lhe pelas costas como de um xaile se tratasse. Os olhos, duas azeitonas maduras e a tez morena da pele concorriam com uma qualquer cigana nómada. Por detrás do seu sorriso aberto e franco surgiam os dentes alvos e perfeitos. Adorava a vida do campo e sobretudo as ceifas. Porém era mulher para pegar na guincha e escavar toda a horta se isso fosse necessário.     Uma viuvez precoce deixara Manuel Funcho com três filhos bem pequenos para criar e educar. A mais nova tinha apenas alguns meses de vida quando ficou órfã, sendo assim entregue pelo pai à avó materna que a criou como da própria filha se tratasse.     Os anos correram com a rapidez da juventude, mas com imensas ralações para os avós da neta mais nova. Esta ainda muito jovem enamorou-se perdidamente por um morgado da vila. Homem mais velho e conhecedor da vida, dando ares de galã e su...

Contos Breves - A Lição do Padre Cosme - II

Uma mão cheia de anos haviam-se já esfumado na interminável tábua da vida, desde que o Manuel Carriço e a Inácia Morgado exprimiram, perante o padre Cosme, o firme propósito de se amarem e respeitarem, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e até que a morte os separasse. Fora uma boda de categoria onde nada faltara. Desde o borrego ao galo, do porco ao coelho, do tinto ao branco, tudo correra à farta. Havia ainda quem se lembrasse dessa festança de três dias. - Nunca houve aqui nas redondezas boda com'a do Manel e da Inácia. Aquilo é que foi comer, buer e bailar até de manhã. Porém nos últimos tempos era frequente o homem pernoitar fora de casa. A mulher na sua conjugal ingenuidade acreditava que algo deveras importante levava aquele a ausentar-se durante toda a noite. Mas certo dia já seriamente intrigada, questionou o marido de um modo que não admitia recurso: - Olha lá home! Qu'é tu fazes de noite, que agora já nem vens dormir a casa? Carriço desculpava-se: - Na...

Contos Breves - Cinco Sentidos - I

Cheira a pão acabado de cozer. A aurora estival abrandada por uma aragem leve qual sussurro, vai espreguiçando a luz de um novo dia por entre as oliveiras velhas de troncos esventrados por séculos de azeitonas. O sol doirado como a seara de trigo que balança melancolicamente em ondas serenas, surge silenciosamente por detrás da serra imponente e imperturbável. A passarada inicia o frenético corrupio em busca de comida para alimentar as bocas insaciáveis que povoam os ninhos, encravados entre os ramos de um velho sobreiro ou debaixo dos telhados centenários. O povo, pacato e trabalhador de mãos gravadas de calos e peles rasgadas por anos de fadigas, vai abandonando o mundo caseiro, envolto em paredes de pedra e cal crua e fresca. Cada um marcado pelo seu destino, todos invariavelmente diferentes. É a terra que pretende charrua funda, o trigo que necessita de ceifa, o gado que deseja pasto novo e saboroso. Por entre as pedras que o astro já aquece, serpenteiam répteis numa perseguição es...

Apresentação

Nem sei como começar... Este nome apareceu quase como uma brincadeira, faz mais de trinta anos. Serenamente fui mantendo este pseudónimo (que todos os meus amigos conhecem) durante todos estes anos. Quero com este blog dar a conhecer um pouco da minha escrita de contos, poemas ou crónicas. Escrever é para mim um prazer e quase uma terapia de fim de dia. Há quem vá para o ginásio ou pratique natação. Eu prefiro a escrita. A qualidade dos meus textos é claramente muuuuito duvidosa, mas tenho muito prazer no que escrevo. E isso, neste momento, é o que me importa. Os primeiros escritos serão contos de ficção, de cariz muito rural e que compilei faz tempo num só livro, a que dei o nome de "Contos Breves". Intervalarei com alguma poesia e outros inéditos. Os comentários, se os houver, serão sempre bem vindos mesmo que sejam para dizer mal... Esta é a minha casa da escrita. E aqui vos recebo de abraços abertos! Bem-hajam.